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terça-feira, 24 de outubro de 2017

A Reforma e Missões - Ronaldo Lidório

A Presença da Igreja como agente de expansão da Palavra pregada

Ronaldo Lidório 
Via Veredas missionária 
http://veredasmissionarias.blogspot.com.br/2009/07/reforma-e-missoes-ronaldo-lidorio.html

A Reforma Protestante desencadeada com as 95 teses de Lutero divulgadas em 31 de outubro de 1517 foi sobretudo eclesiástica em um momento em que todos os olhares se voltavam para a reestruturação daquilo que a Igreja cria e vivia. Renasceram assim os dogmas evangélicos. A Sola Scriptura defendia uma Igreja centrada nas Escrituras, Palavra de Deus; a Sola Gratia reconhecia a salvação e vida cristã fundamentadas na Graça do Senhor e não nas obras humanas; a Sola Fide evocava a fé e o compromisso de fidelidade com o Senhor Jesus; a Solus Christus anunciava que o próprio Cristo estava construindo Sua Igreja na terra sendo seu único Senhor e a Soli Deo Gloria enfatizava que a finalidade maior da Igreja era glorificar a Deus.

A Missão da Igreja, sua Vox Clamantis, não fez parte dos temas defendidos e pregados na Reforma Protestante de forma direta. Isto por um motivo óbvio: os reformadores como Lutero, Calvino e Zuínglio possuíam em suas mãos o grande desafio de reconduzir a Igreja à Palavra de Deus e assim todos os escritos foram revestidos por uma forte convicção eclesiológica e sem uma preocupação imediata com a missiologia. Isto não dilui, entretanto, a profunda ligação entre a reforma e a obra missionária por alguns motivos:

a) A Reforma levou a Igreja a crer que o curso de sua vida e razão de existir deveriam ser conduzidos pela Palavra de Deus (submetendo o próprio sacerdócio a este crivo bíblico) e foi justamente esta ênfase escriturística que despertou Lutero para a tradução da Palavra na língua do povo e inspirou posteriormente centenas de traduções populares em diversos idiomas fomentando posteriormente movimentos como a Wycliffe Bible Translators com a visão da tradução das Escrituras para todas as línguas entre todos os povos da terra. Hoje contamos com a Palavra do Senhor traduzida para 2.212 línguas vivas. João Calvino enfatizava que “... onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza... não há dúvida de que existe uma Igreja de Deus ”. O grande esforço missionário para a tradução bíblica resulta diretamente dos ensinos reformados.

b) A Reforma reavivou o culto onde todos os salvos, e não apenas o sacerdote, louvavam e buscavam a Deus. E Lutero em uma de suas primeiras atitudes colocou em linguagem comum os hinos entoados nos cultos. Esta convicção de que é possível ao homem comum louvar a Deus incorporou na Igreja pós reforma o pensamento multiétnico onde “o desejo de levar o culto a todos os homens” como disse Zuínglio não demorou a ressoar na Igreja culminando com o envio de missionários para o Ceilão pela Igreja Reformada holandesa no século XVII que disparou um progressivo envio missionário e expansão da fé Cristã nos séculos que viriam. Um culto vivo ao Deus vivo foi um dos pressupostos reformados que induziu a obra missionária a levar este culto a todos os homens transpondo barreiras linguísticas, culturais e geográficas.

c) A Reforma trouxe a Glória de Deus como motivo de vida da Igreja e isto definiu o curso de todo o movimento missionário pós reforma onde o estandarte de Cristo, e não da Igreja, era levado com a Palavra proclamada entre outros povos. Os morávios já testificavam isto quando o conde Zinzendorf, ao ser questionado sobre seu real motivo para tão expressivo e sacrificial movimento missionário, responde: “estou indo buscar para o Cordeiro o galardão do Seu sacrifício”. John Knox na segunda metade do século XVI escreveu que a Genebra de Calvino era “a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra desde a época dos apóstolos ”. O centro das atenções portanto era Cristo e nascia ali um modelo cristocêntrico de pregação do evangelho que marcaria o curso da história missionária nos séculos posteriores.

Mas sobretudo a Reforma Protestante passou a Igreja pelo crivo da Palavra e isto revelou-nos a nossa identidade bíblica, segundo o coração de Deus. Seguindo o esboço desta eclesiologia reformada poderemos concluir que somos uma comunidade chamada e salva pelo Senhor com uma finalidade na terra. Zuínglio, logo após manifestar sua intenção de passar a pregar apenas sermões expositivos em janeiro de 1519 afirmou em sua primeira prédica que “a salvação põe sobre nós a responsabilidade de obediência ”.

Seguindo esta ênfase eclesiológica sob cunho escriturístico vemos que Ekklesia, Igreja, é um termo composto que pode ser dividido em "Ek" (para fora de) e "Klesia", que vem de "Kaleo” (chamar). Etimologicamente pode, portanto, ser entendida como "chamada para fora de" o que a principio nos dá uma idéia mais real desta comunidade dos santos que entra em um templo mas precisa postar seus olhos além muros. Obviamente o termo também está ligado a "agrupamento de indivíduos" e de certa forma a "instituição" porém em todo o N.T. adquire o conceito de "comunidade dos santos" e fora MT. 16:18 e 18:17 está ausente dos evangelhos aparecendo, porém, 23 vezes em Atos e mais de 100 vezes em todo o Novo Testamento. Gostaria que déssemos atenção neste momento a alguns conceitos neotestamentários e reformados para esta comunidade dos filhos de Deus que foram demoradamente estudados pelos reformadores e impulsiona a Igreja hoje para uma obra missionária baseada na Sola Scriptura e para a glória de Deus.

1. Igreja de Deus

Comumente encontramos no N.T. a expressão "Igreja de Deus” ("Ekklesia tou Theou") o que evidencia que esta Igreja veio de Deus e pertence a Deus. É uma comunidade que possui Deus como fonte; é eterna, espiritual e universal. Não provém de elucidação humana ou de uma obsessão nutrida por um grupo de loucos há 20 séculos, antes foi articulada por Deus, formada por Deus, é pertencente a Deus e permanece ligada a Deus. Independente das deturpações da fé, das ramificações que se liberalizaram, dos que se perderam pelo caminho, a Igreja permanece, pois é posse de Deus.

Desta forma a “Ekklesia tou Theou” necessita caminhar de acordo com o palpitar do coração de Deus, a quem pertence, traduzindo para sua vida os desejos profundos deste coração. É baseados nesta verdade que necessitamos renovar nosso compromisso com a eclesiologia bíblica – um grupo de santos chamado por Deus para a inusitada tarefa de transtornarem o mundo com o evangelho de Cristo.

2. Igreja local

Também no N.T. encontramos o conceito de "igreja local". Em 1o Co 1:12 vemos, por exemplo, a expressão "Igreja de Deus que está em Corinto", onde "que está" (“te ouse”) indica a localidade da igreja. Mostra-nos que os santos de Corinto pertencem à Igreja, e não que a Igreja pertence à Corinto, o que deve ficar bem claro. Nos últimos 2.000 anos a Igreja adquiriu uma forte tendência de se "localizar" condicionando-se tão fortemente a uma cidade ou bairro a ponto de alguns chegarem a defender uma "demarcação" geográfica da responsabilidade da Igreja impedindo trabalhos fora da sua "jurisdição".

Num conceito neotestamentário "Igreja" é uma comunidade sem fronteiras e, portanto, creio que há necessidade de sacramentalizarmos mais os santos e menos os templos. Missões não é um programa eclesiástico, é a respiração da Igreja. Lembro que na tribo Konkomba no oeste africano há uma expressão que diz: “respiração é vida – não é preciso pensar para respirar; não é preciso pensar para viver”.

3. Igreja humana

Também dentro do conceito de "Igreja" nos deparamos no N.T. com um perfil bastante humano. Em 1 Ts 1:1 por exemplo vemos "igreja de Tessalônica" ("ekklesia Thesalonikeon") dando-nos a idéia daqueles que são Igreja também sendo Tessalônicos, cidadãos de Tessalônica.

Mostra-nos o fato de que por serem "Igreja" não significa que deixam de ser cidadãos, patriotas, carpinteiros, lavradores, comerciantes, desportistas, pais, mães ou filhos. "Igreja" no N.T. não é apresentada como uma comunidade alienante, mas como uma comunidade que abrange o homem em seu contexto humano fazendo-nos entender que esta Igreja não foi separada do mundo e sim purificada dentro dele. Mostra-nos também que na obra missionária não há super homens mas sim gente como a gente tendo o privilégio de espalhar o Evangelho de Cristo além fronteiras.

No livro de Atos a humanidade passo a passo era chocada com a fé daqueles que "transtornavam o mundo", onde o viver é Cristo, o objetivo era ganhar almas, a alegria era a adoração, o que os unia era a verdadeira comunhão, o amor era traduzido em ações, os fortes guiavam os fracos, as dificuldades eram enfrentadas com oração, a paz enchia os corações e todos, mesmo sem muita estrutura humana, possuíam como finalidade de vida apenas testemunhar do seu Mestre. Era uma Igreja visionária formada por gente limitada como nós.

Entretanto quando olhamos para esta Ekklesia do Senhor Jesus no contexto embrionário do Novo Testamento a pergunta que salta aos olhos é: qual deve ser a principal motivação dos santos para o envolvimento com a obra missionária mundial fazendo Cristo conhecido entre todos os povos da terra ? Nesta expectativa olhamos para Paulo o qual, como missiólogo, expôs aos Romanos a nossa real motivação bíblica e reformada.

Para isto é preciso reler Romanos 16:25-27 quando o apóstolo, encerrando esta carta de grande profundidade missiológica, diz:

"Ora, àquele que é poderoso para
vos confirmar segundo o meu evangelho “
(fala de Deus)

"conforme a revelação do mistério "
(o mistério é o Messias prometido a todos os povos)

"e foi dado a conhecer por meio das Escrituras Proféticas"
(este é o meio de Revelação)

"segundo o mandamento do Deus eterno"
(este é o meio de Eleição)

"para a obediência por fé "
(este é o meio de Salvação)

"entre todas as nações "
(Isto é Missões – a extensão do plano salvífico de Deus)
Mas qual o motivo para este plano divino que visa a redenção de todos os povos? Ele responde no verso 27:

"Ao Deus único e sábio seja dada glória ...”

É a glória de Deus. Este é o maior e mais importante motivo para nos envolvermos com o propósito de fazer Jesus conhecido até a última fronteira do país mais distante, ou da criança caída na esquina da nossa rua.

Martinho Lutero, em um sermão expositivo em 1513 baseado no Salmo 91 afirmou que “a glória de Deus precede a glória da Igreja”. É momento de renovar nosso compromisso com as Escrituras, reconhecer que existimos como Igreja pela graça de Deus, orar ardentemente por fidelidade de vidas e entender que o próprio Jesus está construindo a Sua Igreja na terra. E quando colocarmos as mãos no arado, sem olhar para trás, nos lembremos: a razão da nossa existência é a glória do Deus. Pois Deus é maior do que nós.

Fonte: MissioNEWS (Revista de Missiologia Online) - http://www.missionews.com.br

Via Veredas Missionária - link

sábado, 14 de outubro de 2017

Dez grandes razões para ser um ganhador de almas


1. DEUS NOS MANDOU ALCANÇAR O MUNDO. (Atos 1:8: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e até os confins da terra.”)

2. POR CAUSA DE UM CORAÇÃO GRATO. (Atos 20:35: “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber.”)

3. É UM PRIVILÉGIO TRAZER GLÓRIA AO SENHOR. (1Pedro 4:10,11: “Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus; se alguém administrar, administre segundo o poder que Deus dá, para que em tudo Deus seja glorificado por Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o poder para todo o sempre. Amém!”)

4. É DA RESPONSABILIDADE DOS SALVOS.  (Colossenses 1:10: “para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus;”)

5. É DEVER DOS CRENTES. (Romanos 12: 1: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.”
E Lucas 17:10: “Assim também vós, quando fizerdes tudo o que vos for mandado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.”)

6. PORQUE AS PESSOAS ESTÃO INDO NUMA ESTRADA DIRETA PARA O INFERNO.  (Judas 20-23: “Mas vós, amados, edificando-vos a vós mesmos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo, conservai a vós mesmos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna. E apiedai-vos de alguns que estão duvidosos; e salvai alguns, arrebatando-os do fogo; tende deles misericórdia com temor, aborrecendo até a roupa manchada da carne.”)

7. É PARA OS CRISTÃOS UMA GRANDE OPORTUNIDADE DE SERVIR. (Romanos 13:10,11: “O amor não faz mal ao próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor. E isto digo, conhecendo o tempo, que é já hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto de nós do que quando aceitamos a fé.”)

8. PORQUE É TEMPO DE COLHEITA. (João 4:35: “Não dizeis vós que ainda há quatro meses até que venha a ceifa? Eis que eu vos digo: levantai os vossos olhos e vede as terras, que já estão brancas para a ceifa.”)

9. DAR FRUTOS. (João 12: 24: “Na verdade, na verdade vos digo que, se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto.”)


10. PARA RECEBER A BÊNÇÃO PLENA DE DEUS. (João 4:36: “E o que ceifa recebe galardão e ajunta fruto para a vida eterna, para que, assim o que semeia como o que ceifa, ambos se regozijem.”)

Traduzido por Veredas Missionárias a partir de original em: https://www.agm-ffci.org/tenreasonstobeasoulwinner.asp
Fonte: Veredas Missionária

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O que aprendemos com os feitos de Deus por meio de quatro missionários (In)voluntários

O povo judeu enfrentou duras adversidades nos séculos 6 e 7a.c. Jerusalém foi sitiada pelos caldeus no reinado de Jeoaquim (603 a.C). Profetizavam nessa época Jeremias, Habacuque, Daniel e outros. O livro de Jeremias relata a péssima condição espiritual do povo: insensível, rebelde e contumaz uma religião apenas de aparências. Sua fraqueza espiritual refletia também na sua vida social. A situação era tão grave que Deus chegou a ponto de proibir o profeta de interceder pelo povo.

Mas Daniel e seus companheiros evidenciaram a luz de Deus por onde passaram. A sociologia ensina que o homem é um produto do meio, mas podemos ver que o compromisso com Deus supera essa regra (6:5,10,16). Sua vida era centrada nEle. Experimentaram o propósito mais sublime da vida: conhecer a Deus e fazê-lO conhecido a outros.


Deus intervém transtornando a história do povo judeu e levando alguns jovens para a Babilônia, via cativeiro.
Eis que "realizo em vossos dias obra tal que não crereis quando vos for contada ... " Hb.1:5. Ele iria promover missões, alargar as fronteiras geográficas das marcas do seu reino e fazer um avivamento como orou Habacuque (Hb.3:2).

Alistaremos alguns aspectos transculturais tão vividos no livro de Daniel, integrado com Habacuque e Jeremias.

1 - Uso da língua e cultura do povo. 1:4
O programa do rei de prepará-los incluía isso: "e lhes ensinasse a língua e a cultura dos caldeus."Hoje em dia as missões transculturais labutam com a barreira linguística e cultural para comunicar o Evangelho, mas aqueles quatro missionários tiveram um programa de estudo de língua e cultura promovido pelo próprio rei do país. Três anos de estudo e não se admitia repetência ou retardamento: "ao fim dos quais assistiriam diante do rei".
Creio que Daniel aprendeu bem rápido e isso se mostra em sua vida pessoal, pois seu nome babilônico foi rejeitado, creio que por ele próprio. Nem o rei o chamou de Beltessazar (6:20; 8:15). Provavelmente ele tenha dito: "Não me chame assim, eu não preciso de Bel para me proteger. Chame-me Daniel".

Isso mostra também que a tolerância e aquiescência cultural têm limites; o missionário transcultural deve saber aonde pisa. Quando se tratar de comprometer seu relacionamento com Deus ele tem de mostrar suas posições firmes e não agir somente em nome de identificação cultural. O exagero na identificação cultural os levaria a ter muitos amigos, mas a mensagem se perderia ... A primeira pregação a vida comprometida com Deus.

2 - Sensibilidade com a cultura diferente da sua
Logo no início de sua permanência ali, os quatros jovens tiveram de lidar com o chamado choque cultural. Foi difícil porque se tratava de comida - algo vital e essencial. O chefe Aspenaz tinha uma ordem real a cumprir: o programa de estudos, moradia e inclusive a dieta alimentar (1:5) " ... ração diária das finas iguarias da mesa real e do vinho".

"Oba! Vamos comer o mesmo que o próprio rei come!" Diria um missionário desavisado. Daniel e seus colegas, porém, queriam investigar mais a cultura, a origem e preparação da comida, se era ou não dedicado ao deus Bel, etc. Conhecendo mais sobre a cultura, não queriam aquela comida.
Sua sensibilidade cultural se mostra no fato de não menosprezarem a comida, até chamando-a de finas iguarias (1:13) e serem sensíveis com Aspenaz conforme o difícil pedido que lhe faziam. Daniel fez uma negociação e, com a ajuda de Deus, conseguiu mudar seu cardápio sem comprometer o chefe.
Outra situação difícil: a situação era gravíssima porque o rei tinha decretado a morte de todos os animistas, místicos e esotéricos. Um missionário fundamentalista radical iria dizer aos seus colegas:"Olha, ficaremos livres de todos os  animistas e esotéricos; o rei mandou matá-los". Mas Daniel não era assim: sentiu que devia interferir e fez isso com muito tato: procurou entender bem o que se passava falando avisada e prudentemente com Arioque o homem que executaria as penas de morte (2:14,15). A seguir, sem tardança, pediu audiência com o rei com quem se comprometeu, livrando os sábios da morte. Esse tipo de tato, sensibilidade e coragem pela fé são indispensáveis ao missionário transcultural.

3 - Necessidade de confrontação cultural
Certamente Daniel e os outros fizeram várias concessões de valores e costumes. Adotaram a roupa, a língua e usaram sua sabedoria como instrumentos de bênção divina entre os babilônios, como a intervenção de Daniel em favor dos sábios.
Mais tarde, porém, enfrentaram situações que requeriam uma confrontação cultural muito clara e eles não hesitaram em fazer isso, mesmo com risco da própria vida. Quando os assessores do rei manipularam a ambição política e o levaram a assinar um decreto cujo alvo era atingir Daniel, mas este percebeu toda a trama e assumiu sua posição de fé sem titubear, conforme o capítulo 5. Orou com as janelas abertas assumindo à vista de todos sua prática de fé.

No capítulo 3 foi a vez de Misael, Ananias e Azarias assumirem uma confrontação cultural em nome da fé. Expuseram suas vidas ao perigo da fornalha por se recusarem a fazer algo não coerente com sua fé. Deus os honrou livrando-os do fogo. Puderam testemunhar aos prefeitos, governadores, sátrapas e conselheiros reais. O ocorrido deu ensejo a um decreto real exigindo respeito de todos os babilônios para o Deus deles.
Frequentemente os missionários são submetidos a esse tipo de teste. Aqueles que fazem trabalho transcultural têm de perceber a hora de afirmarem a sua fé.

4 - Lidando com política: manipulação que promete favorecimento pessoal
Não raramente missionários ficam sujeitos a situações que aparentemente os beneficia. A tentação de ceder pode ser forte. Algumas vezes essas situações provém do animismo que insinua a manipulação de poderes sobrenaturais para auferir vantagens pessoais: prestígio político ou religioso, reconhecimento, etc.

Possivelmente os grupos animistas e esotéricos fizeram isso como os quatro jovens mas há um registro de oferta de vantagens da parte do rei que Daniel enfrentou: "Se você puder ajudar-me será vestido de púrpura, ganhará uma cadeia de ouro ao pescoço e será o terceiro no meu reino". Essa era uma boa oferta mas para a pessoa errada, pois Daniel nem se impressionou com ela; ele sabia fazer diferença entre reconhecimento cultural do povo e manipulação interesseira e comprometedora:"Minha palavra profética não  negociável; os teus presentes fiquem contigo e dá os prêmios a outrem ... " (5:16,17).

Certa vez fui desafiado por um xamã indígena. Eles procuram prestígio e reputação na capacidade de manipular poderes (trovões, vendaval, doenças) que as pessoas comuns, não têm. Ele me disse: "Você que é crente, não deixe que chova aqui (pela oração, ele queria dizer). Tentei conversar com ele um pouco e argumentei: "O senhor acha que será bom se não chover? Penso que se não chove as frutas não amadurecem na mata, não poderemos jazer coletas sazonais, as caças e os peixes que se alimentam de frutas e flores também não vão crescer, nossas plantações também não vão produzir ... Será realmente bom se não chover? ... " Uma pessoa que escutava atentamente nossa conversa começou a rir. Ele ficou desconcertado e mudou de assunto.

Fica uma pergunta: Será que Sadraque, Mesaque e Abede-Nego gostaram da prosperidade com que o rei os agraciou (3:30) e continuaram com seus nomes babilônios? Esta é a última referência sobre eles. Não são mencionados na parte final do livro ...

Seria esse um sinal de alerta para missionários transculturais? À guisa de conclusão, olhando a seqüência na história, vemos que no final de tudo, Deus levantou Ciro para reedificar sua obra como predito em Isaías 44 e relatado em Esdras.

O avivamento chegou. As orações de Habacuque, Jeremias e Daniel foram respondidas no tempo de Deus e à sua maneira. O rei Dario consulta os arquivos e atende a decisão de Ciro. Ed. 6:3.

A luz brilhou na Babilônia, cumpriu-se a vontade soberana de Deus.

http://www.novastribosdobrasil.org.br/
Silas de Lima

Via: Veredas Missionária 

terça-feira, 5 de abril de 2016

O perfil do missionário em um mundo turbulento


Dr. Jonatán Lewis

Vivemos nos melhores e nos piores tempos. Os avanços tecnológicos permitem a alguns viver vidas mais longas, mais produtivas, e com maior conforto que nossos antepassados. Porém, com todos os avanços tecnológicos, uma grande parte dos seis bilhões de habitantes deste mundo tem uma péssima qualidade de vida, alguns ao ponto de uma desumanização inacreditável. Os problemas sociais são enormes e endêmicos: a AIDS, a dúvida, o desmatamento, a contaminação ambiental, os refugiados, a guerras, o genocídio, a ameaça das armas biológicas e nucelares, o terrorismo etc. O secularismo, impulsionado pelos avanços científicos e a corrente do modernismo, não oferece soluções. Como força missionária, a estes desafios agregamos enormes correntes sociais, tais como o fundamentalismo religioso e sua hegemonia política em muitos países, que entorpecem nosso trabalho. Como realizaremos missões frente a esses tremendos desafios? Pode sobreviver o trabalho missionário? E se há de sobreviver, como se esboçará o missionário, sua missão, e o sistema que lhe envia e apoia nestes dias tão turbulentos?

Uma perspectiva escatológica

Em Mateus 24, frente à pergunta: Quando virá o fim? O Senhor Jesus descreve um mundo muito similar ao nosso. Porém apesar dos problemas descritos, no versículo 14 assevera que “Será pregado este evangelho do reino em todo o mundo, em testemunho a todas as nações; e então virá o fim.” Se entendemos missões como a gama ampla de tudo o que Deus faz para cumprir com a pregação do evangelho a todas as “nações”, então não resta dúvida de que Seu plano de “missões” vai continuar até o fim. Mas com esta declaração, também esclarecemos que “missões” pode realizar-se por qualquer meio que Deus queira utilizar. A meta da missão não muda, mas sim suas formas e normas.
Se a história se repete, Deus seguirá utilizando meios voluntários e “involuntários” para cumprir a sua meta. Ele utiliza a adversidade e os problemas como “oportunidades” para estender seu Reino. Em nosso mundo, a perseguição a crentes e a dispersão que é a sua consequência, segue sendo uma via missionária importante como já tem sido na história das missões (Ato 8.1).
Não só se estão mobilizando missionários como refugiados, porém Deus está movendo grandes populações de não-alcançados como imigrantes aos países povoados de cristãos com o propósito, segundo Atos 17.26,27, de que eles encontrem a Ele.
Não há dúvida que há muita missão transcultural a realizar-se entre esses imigrantes por parte da igreja, sem necessidade de enviar missionários a grandes distâncias. Deus elegeu utilizar a seu povo como agente principal para a evangelização mundial e realizará este trabalho de uma forma ou de outra (Gen 12.3; Ex 19.5,6).
Porém o outro lado do quadro é que Deus tem comissionado a seu povo com a tarefa da evangelização mundial, e cremos que lhe dá muito prazer e honra quando seu povo se organiza voluntariamente para realizar este trabalho. Dou graças a Deus que vi     vemos um dia em que as missões têm chegado a ser uma preocupação da igreja em todo o mundo. A visão de um movimento missionário “de todas as nações à todas as nações” tem impulsionado o ensinamento e a mobilização missionária a um nível global. Neste sentido, cremos que vivemos em um momento muito especial no plano de Deus, um momento quando quase todas as congregações e quase todos os crentes verdadeiros no mundo estão sendo conscientizados de sua responsabilidade de participar com protagonismo na tarefa global.
Este momento histórico também reúne condições que nos permitem asseverar que a Grande Comissão se pode cumprir em nossa geração. Forças tecnológicas nos permitem uma agilidade tremenda no envio e nas comunicações com os missionários e seus projetos, e a possibilidade de cobrir massivamente o globo terrestre com a Mensagem. Mas mesmo com essas ferramentas o trabalho não é fácil. Os missionários e suas organizações estão sendo afetados por grandes forças sociais, econômicas e espirituais que representam desafios e oportunidades nesta feroz guerra espiritual.

As forças da Globalização Tecnológica

Quase trinta anos atrás, um futurista popularizou o conceito de “aldeia global”. A realidade é que vivemos em um mundo pequeno. Pela influência das comunicações instantâneas, nos inteiramos do que se passa com todos os “vizinhos”. Dentro de poucas horas, vemos transmitidas por satélites imagens de qualquer acontecimento catastrófico acontecido no mundo, das consequências do terrorismo, de guerras, de secas, terremotos, e com todo o horror do momento. Hoje podemos receber canais de televisão de todo o mundo em nossos lares. Por meio da internet, temos acesso à notícias de quase qualquer país e cidade. Pelo mesmo meio, podemos pesquisar qualquer tema que nos possa interessar. O telefone celular abre as possibilidades de comunicarmo-nos com quem quisermos em todo o globo terrestre. E já entramos na era em que os telefones vêm armados com sistemas de vídeo para vermos a pessoa com quem estamos nos comunicando.
A tecnologia sem dúvida tem mudado o perfil do missionário. A habilidade no uso da internet é indispensável. E como parte de seu equipamento vai o computador que permite acesso ao correio eletrônico e leva em si quase todos os outros elementos que tem chegado a ser quase indispensáveis para a obra. O correio eletrônico permite comunicações quase instantâneas com sua igreja local, sua família e seus amigos de uma maneira eficiente e econômica. Hoje é possível conversar com um amigo em outro continente sem custo, utilizando o computador. A facilidade e efetividade destes meios de comunicação aumentarão durante os próximos anos e serão cada vez mais acessíveis a todos os cidadãos de nosso planeta.
O transporte é outro meio que tem diminuído nosso planeta. Hoje, se pode viajar de qualquer país do mundo e estar em qualquer outro país dentro de 24 horas. Ainda que as passagens aéreas pareçam caras, em comparação com o que historicamente custou viajar, são realmente baratas. Quando William Carey navegou da Inglaterra até a Índia em 1790, a passagem para ele e sua equipe custou o equivalente a 50 anos de um salário mínimo. Hoje, a mesma viajem (dessa vez por via aérea) custa uma fração de um salário mensal (em termos de países desenvolvidos). Vivemos numa época em que todo mundo viaja ao redor do mundo e a possibilidade de mover uma família de um lugar a outro é relativamente fácil e econômica.
Outro grande avanço na globalização é a transferência de divisas e valores eletronicamente. Hoje em dia, qualquer um que obtenha um cartão de crédito pode utilizá-lo para retirar dinheiro em milhares de caixas automáticos em todo o mundo. Todos os produtos são mais acessíveis com “o cartão”. O comércio utilizando a internet e cartões de crédito, cresce vertiginosamente. Quando Hudson Taylor serviu na China em meados do século XIX, uma carta demorava seis meses para chegar e se havia alguma necessidade econômica, levaria um ano inteiro entre avisar os irmãos e receber o dinheiro. Hoje as comunicações e as transferências eletrônicas permitem a atender o missionário de um dia para o outro.
Há muitos que resistem aos avanços tecnológicos. Os mesmos lhes atribuem um valor moral. Porém a tecnologia, como o dinheiro, a influência, e quantas outras coisas, podem ser utilizadas para o bem ou para o mal. O apóstolo Paulo utilizou os meios tecnológicos ao seu alcance (como passagens em barcos e a palavra escrita) para realizar a tarefa de evangelização. Não duvidemos que os avanços tecnológicos devem utilizar-se para o avanço do Reino. Os elementos tecnológicos da globalização nos facilitam e possibilitam a obra missionária.

O Perfil das Agências Missionárias

A história de missões nos apresenta várias estruturas que se tem utilizado para recrutar, enviar e manter a força missionária. É certo que as estruturas utilizadas para mobilizar voluntários para a missão, historicamente, sempre têm tomado seu padrão de estruturas já existentes na sociedade. Pode surpreender a alguns que os movimentos monásticos seguiram o padrão militar com o propósito de levar a cabo a expansão da igreja. Utilizando este modelo, os jesuítas puderam avançar a causa em lugares tão remotos como Paraguai, Japão, China e Canadá. Os celtas da ilha britânica adotaram este modelo para a evangelização de todo o norte europeu.
O movimento “moderno” protestante que nasceu em fins do século XVIII, utilizou estruturas que correspondiam ao modelo empresarial que surgiu em sua geração. As “sociedades” que se criaram foram manejadas com os critérios que correspondiam ao padrão comercial. Eventualmente, essas estruturas foram modificadas com o correr do tempo. Hoje em dia, falamos de “agências missionárias” que se manejam em muitos sentidos, como empresas modernas. Adotaram muito das ciências sociais como o manejo por meio de objetivos e os sistemas de manejo de pessoas contemporâneo. Se queremos entender de onde procedem as estruturas missionárias, é importante entender de onde procedem as instituições “seculares” e o efeito geral que tem a globalização sobre elas.

Mudanças nas forças estruturais nos últimos anos

Nos últimos anos, se tem visto uma grande mudança na estruturação de empresas. A direção da mudança é de estruturas piramidais com vários níveis de supervisão para estruturas planas com menos níveis hierárquicos, de onde os que realizam o trabalho têm mais controle sobre as decisões que afetam diretamente o seu trabalho. Algumas grandes empresas se administram como uma coleção de microempresas. Cada unidade é avaliada por sua eficácia. Quando não cumpre as metas, essa unidade se reorganiza ou é encerrada.
As missões também estão sentindo o efeito da descentralização de controle. Novas agências nos países históricos de envio que têm seguido essas inovações, têm crescido e prosperado. Lançam equipes ao campo e permitem que estas tomem as decisões que afetam sua obra. Agências que não puderam adaptar-se e seguem o padrão hierárquico com tomada de decisões centralizadas, tem diminuído em membresia e em muitos casos, se tem visto forçados a abandonar sua autonomia e fundir-se com outras agências para sobreviver.
Os efeitos da globalização reforçam o modelo descentralizado em que até mesmo as igrejas locais podem enviar missionários sem depender de agências. Com a possibilidade de comunicação, transporte fácil e barato, o envio direto do missionário e seu sustento, muitas igrejas têm preferido não utilizar as agências que historicamente realizaram essas funções, entre outras.
A descentralização de agências, com equipes que funcionam com certa autonomia no campo, é talvez o bem mais valioso desta tendência estrutural. Isso permite flexibilidade e a agilidade necessária na tomada de decisões que requerem a situação local em um mundo em mudança. Mas é importante destacar que essas equipes necessitam de supervisão, apoio e cuidado por pessoas experimentadas nas exigências e desafios da obra missionária na região onde servem. Ainda que as funções das agências missionárias tenham mudado em razão dos avanços tecnológicos, não se dispensou sua necessidade. Igrejas que enviam missionários sem contar com esse apoio, na maioria dos casos, perdem tempo e recursos. Historicamente, o ‘micromanejo’ da obra no campo pela igreja local com frequência leva à ineficácia e fracasso.

A Força das Alianças Internacionais

A globalização também tem afetado as empresas. A cada dia se escutam notícias de grandes empresas internacionais que historicamente foram competidoras, agora unindo esforços e formando sociedades para trabalhar em conjunto. Volkswagen e Ford produzem um automóvel em conjunto, linhas aéreas se unem às suas ex-competidoras para formar uma aliança estratégica que pode captar uma maior proporção do mercado global.
As Missões também estão formando alianças estratégicas localizadas em grupos culturais ou geográficos. Dezenas de alianças tem surgido entre grupos cristãos com origens muito variadas. Foram apagadas muitas das barreiras denominacionais e não é muito estranho ver uma equipe missionária que contém batistas, pentecostais e presbiterianos trabalhando em conjunto. Nesta mesma equipe pode haver mexicanos, filipinos e canadenses. Frente a esta realidade, o missionário eficaz cultivará uma atitude ampla em relação a seus companheiros de batalha.
O missionário que trabalha nesse ambiente tem que ser flexível e tratar de entender e apreciar as diferentes perspectivas doutrinárias e culturais. Isso requer humildade e habilidade de ver a meta de almas achegadas ao Senhor por meio do testemunho e trabalho da equipe. O egoísmo e a ambição pessoal, não funcionam nesse mundo de colaboradores.

A Força do Pluralismo e o Fanatismo Religioso

Nem todo mundo está de acordo que Cristo é o Senhor. Os seguidores de outros profetas e mestres são numerosos. Dos seis bilhões de habitantes na Terra, somente um terço se identifica como cristão. No Ocidente, o pluralismo religioso “respeita” o direito de cada um de crer em qualquer deus e religião. A relatividade diz que “se é verdade para você, é sua verdade”. “Porém sua verdade não é necessariamente minha verdade, senão aquilo que eu interpreto como verdade.” Qualquer proclamação de Cristo como único Senhor pode ser repudiada e ainda condenada como intolerante. Mais de um julgamento foi realizado com base em alegações de "angústia emocional" provocada pela pregação da condenação do pecador, frente a um Deus justo. O fato de que o pregador também revela a salvação oferecida em Cristo não é suficiente para justificar os evangelistas que são acusados de usar “pressão psicológica” para ganhar partidários.
Do mesmo modo, os missionários em países onde dominam as grandes religiões como o Islã, o Budismo e Hinduísmo, estão sendo atacados por uma nova onda de fundamentalismo. Paralelamente, a “retribalização” do mundo é um fato que tem tido suas piores expressões nos terríveis massacres em nossa história recente. A brutal carnificina em Ruanda e os conflitos bélicos dos países bálticos são exemplos de uma corrente global que cada vez mais quer manifestar sua própria identidade racial, religiosa e cultural. E esses estão dispostos à matança e ao genocídio para obtê-lo.
Neste ambiente, o pregador de uma religião estrangeira não é bem-vindo. As igrejas cristãs minoritárias nesses países se veem sob perseguição aguda e os missionários tem sido expulsos e expostos ao martírio. O missionário tem que enfrentar essas realidades com a sabedoria da serpente e a inocência da pomba.

O Perfil Missionário com as Duas Mãos

As forças sociais de oposição não podem ser enfrentadas com conceitos tradicionais do missionário do século XX. Os países onde vivem as grandes maiorias de inalcançados não permitem a entrada de missionários tradicionais. Frente a essa realidade, se tem revitalizado o conceito do missionário bi-ocupacional, o missionário que vai a outro país com a Palavra em uma mão e sua ferramenta de serviço na outra. Lamentavelmente, a abordagem a esta questão tem sido em grande parte pragmática sobre como resolver o problema para entrar e viver no país. Essa orientação se tem comprovado deficiente em suas considerações éticas e teológicas. O fracasso desta abordagem nos chama a uma profunda reflexão sobre a cosmovisão “cristã” popular, que propaga a falsa dicotomia entre o “sagrado” e o “secular”. A posição bíblica é que tudo o que fazemos é “sagrado” se o consagramos a Deus. Todos estamos chamados a realizar nossa vocação por meio de todas as nossas ocupações e não apesar delas (1Co10.31). Para isso, a igreja necessita mover-se para eliminar de uma vez a distinção entre ministros laicos e profissionais, completando o que a “Reforma Protestante do Século XVI” começou, com seu ensino sobre o sacerdócio santo de cada crente (1Pe 2.8). Só assim se lançará a tremenda força missionária latente da igreja.
Tomado pelo aspecto prático, o sistema bi-ocupacional para o envio e sustento do missionário é talvez o que mais potencial oferece aos movimentos missionários dos países de menores recursos. A maioria dos grupos não alcançados se encontra nos países mais pobres do mundo. Com uma larga história de fracassos no apoio econômico direto aos governos destes países, os países desenvolvidos se tem voltado para o uso de organizações não governamentais (Ongs) e Fundações na canalização de apoio econômico e social. A igreja está descobrindo este meio para inserir obreiros bi-ocupacionais e assim realizar suas metas. A oportunidade é enorme e a igreja tem que fazer muito mais, para aproveitar-se disso.
Ainda que existam vários canais para os bi-ocupacionais, não restam dúvidas de que essa pessoa terá que se capacitar adequadamente. A experiência demonstra que tomar uma profissão simplesmente como “cobertura” para estar em um país, é incoerente com a meta de ser testemunha de Cristo nesse lugar. As melhores testemunhas são as que realizam seu trabalho profissionalmente, e também se tem capacitado para realizar a obra de Deus nesses lugares. Ambas linhas de capacitação são necessárias.

As Forças Espirituais do Maligno

Hoje a igreja está despertando para a necessidade de enfrentar diretamente as forças satânicas que tem cegado os olhos de milhões, por milênios. A igreja sempre tem tido os dons e sempre tem possuído as armas espirituais. Porém nem sempre as utilizou com um enfoque maior. Graças a este despertar para a guerra espiritual, o enfrentamento de potestades e poderes está sendo encarado de forma específica e sistemática. Na medida em que a igreja se mobiliza para marchar sobre seus joelhos e levanta guerreiros espirituais, terá êxito na grande luta pelas almas de milhões. Há muitos que acreditam que as expressões das forças malignas aumentarão ao aproximar-se o fim. Vão lutar de forma desesperada para manter sua autonomia e deter seu castigo eterno.
O perfil do missionário hoje é o perfil de um guerreiro. Necessita saber manejar as armas espirituais com maior eficácia para defender-se, e para aplicá-las na libertação dos que vivem debaixo do poder do maligno.

Conclusões

Como se apresenta o ministério missionário diante dos desafios de hoje? Não há dúvida que será distinto de seus precedentes. Deus cumprirá Seus propósitos com ou sem o esforço voluntário da igreja. Porém seu povo vive um momento especial que permite a alegria de crer que se pode cumprir a Grande Comissão dentro desta geração. A igreja global está captando a visão. As forças da globalização tem provido ferramentas que facilitam a comunicação, a mobilização e o envio de recursos. As estruturas de envio também serão mais ágeis, apoiadas pela flexibilidade e acesso que provém desses meios. A organização missionária será descentralizada e disposta a uma colaboração entre crentes de diversas origens e denominações. Alianças estratégicas serão forjadas no solo não só entre grandes entidades, mas também entre igrejas pequenas que juntas podem realizar projetos que sozinhas não empreenderiam. Tomadas por uma visão de evangelizar aos povos que não escutaram a mensagem do Evangelho “até o último da terra”, unirão esforços com quem não poderiam imaginar-se trabalhando poucos anos atrás. Por tudo isso, adoramos a Deus.
Por outro lado, a dificuldade da tarefa de evangelização aumentará. A resistência dos movimentos nacionalistas e das filosofias pluralistas identificarão o missionário como “o inimigo cultural número um”. O preço será a rejeição e o martírio. As perseguições sobre as igrejas minoritárias aumentarão. A única consolação é saber que Deus       utilizará este sofrimento para Sua glória (Ap 6.9-11). Na oposição e no martírio, a missiologia e as bases teológicas em que se baseia renovarão seu compromisso com o Cristo do Novo Testamento e o compromisso que isso demanda. Só assim se conseguirá “fazer discípulos de todas as nações”. E frente a um inimigo desesperado, aumentará a quantidade e a qualidade de guerra espiritual para libertar as almas.
Que o movimento missionário seguirá em frente, não há dúvida. Deus é o que se encarrega de ver que Sua palavra se cumpra. E foi Ele que nos assegurou que “Será pregado este evangelho do reino em todo o mundo, em testemunho a todas as nações; e então virá o fim”. Que o povo de Deus seja fiel a seu chamado e desenvolva seu compromisso voluntariamente com todas as vantagens tecnológicas que temos hoje, mas também com o sacrifício e o compromisso que demanda evangelizar nosso mundo turbulento.

A Ele seja a glória, a honra e o domínio para sempre.

Tradução de Sammis Reachers / Veredas Missionárias, a partir do original em espanhol publicado por COMIBAM (http://www.comibam.org/wp-content/uploads/2016/02/el_perfil_del_misionero.pdf )

*   *   *   *   *
Dr. Jonathan Lewis nasceu em 1949, filho de pais missionários em Buenos Aires, Argentina. Durante sua carreira profissional viveu e trabalhou em Honduras, Peru, México e Argentina. Jonathan está casado com Dawn por quase 35 anos e tem quatro filhos: Natanael, Heather, Josías e Anneliese.

Fonte: Veredas Missionária

sábado, 19 de março de 2016

Baixar,Download Estudo no Evangelho de João - Gratuito


Um estudo impactante neste livro da Bíblia para você 
personalizar com os dados da sua igreja e usar no evangelismo.

Lição 1 - Conheça mais de JESUS CRISTO
Lição 2 - Conheça mais acerca da SALVAÇÃO
Lição 3 - Conheça mais acerca da VIDA ETERNA
Lição 4 - Conheça mais acerca da NOVA VIDA EM CRISTO

(Apenas lições para download. Não inclui o Evangelho de João.)


Fonte: http://www.editoraelim.com.br/

O Emocionante "Agora" da Missão Cristã


Apenas pense nisso. O Deus do universo focou sua revelação especial e obra de redenção em um pequeno povo étnico, Israel, por 2000 anos - do chamado de Abrão em Gênesis 12 à vinda de Cristo. Por todo aquele tempo, "... permitiu que todos os povos andassem nos seus próprios caminhos;" (Atos 14:16).

Então na entrada de seu Filho no mundo, tudo mudou.
Quando Jesus estava saindo para retornar ao paraíso ele disse: "... que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém." (Lucas 24:47). "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;" (Mateus 28:19). Essa foi uma mudança-chave na história do mundo.
Plano Diligente De Deus

Mas o mandamento de discipular todas as nações não foi uma reflexão tardia. Foi um plano desde o momento que Deus escolheu Israel. Deus disse a Abraão: "Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra." (Gênesis 12:3)
Paulo aplicou isto ao evangelho da justificação por meio da fé em Cristo: "Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria pela fé os gentios, preanunciou o evangelho a Abraão: Em ti, serão abençoados todos os povos." (Gálatas 3:8). Então, Deus estava se aprontando para alcançar as nações com o evangelho de Cristo quando ele escolheu Abrão 2000 anos antes da vinda de Cristo.
Por que, então, uma espera tão longa, até a vinda de Cristo e da Grande Comissão, que foi estabelecida em seu nome?

Qual o motivo da longa espera?

Porque na sabedoria de Deus, ele sabia que as nações do mundo iriam compreender a natureza de Cristo e sua obra melhor em uma situação que tem a história de 2000 anos de Israel com lei e graça, fé e falha, sacrifício e expiação, sabedoria e profecia, misericórdia e julgamento.
Aqui está o modo com que Paulo colocou isso em Romanos 3:19-20: "Ora, sabemos que tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundoseja culpável perante Deus, visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado." Em outras palavras, Deus falou por 2000 anos a Israel de maneira que "todo o mundo" perceberia que não há esperança de estar certo perante Deus "por obras de justiça praticadas por nós". (Tito 3:5)

Livro de Lição Para As Nações

A história de Israel não é apenas sobre Israel. É sobre "toda boca" e "todo o mundo". Este não foi um desvio de 2000 anos. Deus estava escrevendo um livro de lição para as nações. Não é um acidente que nossa Bíblia tenha um Antigo Testamento.
Quando Paulo pregou aos gregos não judeus em Areópago ele disse que até agora os "tempos da ignorância" dominavam. Deus deixou eles seguirem os seus próprios caminhos. Mas não de agora em diante. "Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos." (Atos 17:30-31).

O "Agora" de Todas As Nações

Esse é o "agora" em que vivemos. E é um "agora" emocionante. "Agora, Deus notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam." O Cristo ressurreto autoriza esse mandamento. Ele vai estar conosco até o seu cumprimento.
Nós vivemos no "agora" de "todas as nações". Deus preparou esse momento por 2000 anos antes de Cristo. Ele tem perseguido isto por 2000 anos depois de Cristo. Jesus está vivo e tem poder para salvar. E está no tempo da colheita.

Fonte: Veredas Missionárias

domingo, 27 de setembro de 2015

25 Estratégias Bíblicas para o Ministério Urbano

Traduzido e adaptado por Veredas Missionárias a partir do original 
em inglês disponível em http://www.aibi.ph/urban/25stratg.htm

Como é que os servos de Deus nas Escrituras ministraram para a cidade? Quais estratégias e métodos que eles usaram se mostraram mais eficazes? Este é um breve resumo oferecendo-lhe uma miscelânea de modelos bíblicos de ministério urbano para escolher. Em seguida, será solicitado que você selecione uma estratégia adequada e faça um planejamento muito básico. É claro que o método escolhido vai depender da sua vocação, seus recursos e do caráter espiritual da cidade que você está ministrando.

  1. Intercessão - como Abraão fez para Sodoma em Gênesis 18 e Esther fez rapidamente em Susa.
  2. Declaração profética - como Jonas ministrou a Nínive.
  3. Envolvimento político - como Daniel teve um "ministério de sabedoria" na cidade de Babilônia.
  4. Ministrando para a cidade em um momento de crise, quando as pessoas estão abertas para encorajamento espiritual. Isaías 37-39.
  5. Ministrando para a cidade em momentos-chave de sua história, por exemplo, durante a sua fundação (David depois de tomar Jerusalém), sua reconstrução (profetas pós-exílio), ou tempos de mudança drástica e turbulência (Jeremias).
  6. Construção de edifícios religiosos de tal escala e grandeza que eles se tornam um ponto de renome, uma atração e um centro da vida comunitária. Por exemplo, a construção do templo e as catedrais da Europa.
  7. Envolver a cidade em um projeto de grande escala em seu próprio benefício, mas que precisa da ajuda de Deus para ser conseguido. Por exemplo, Neemias na construção dos muros de Jerusalém e a unidade, senso de propósito e alegria no Senhor, que resultaram disso.
  8. Criação de músicas que sejam cantadas na vida cultural da cidade e se tornem instrumentos de ensino. Davi e os Salmos. Os hinos de Martinho Lutero, Charles Wesley.
  9. Renovação religiosa e restauração do culto na cidade por uma liderança convertida, como no renascimento de Ezequias.
  10. Equipes de ministério de curto prazo que vão para um grande número de cidades com ministério de poder "curar os doentes, ressuscitar os mortos e pregar o Reino de Deus" (Lucas 9 e 10). Isso prepara o caminho para uma pregação mais completa do evangelho - Jesus mais tarde seguiu-os e veio para as cidades.
  11. Aproveitando-se de grandes eventos da comunidade como um ponto de proclamação, como Jesus fez com festas judaicas. Escusado será dizer que grande sabedoria é necessária no emprego desta estratégia, embora ministérios bem sucedidos nos Jogos Olímpicos e feiras Expo têm sido realizados sem causar ofensa indevida.
  12. Ação social - alimentar as viúvas, ajudar os pobres, curar os doentes como a Igreja primitiva fez. (Atos 2-4)
  13. Culto aberto ou ao ar livre que os não-crentes possam ver e tomar ciência, como quando a igreja primitiva adorava no Templo de Jerusalém. Equipes de louvor nas ruas e equipes em praias com guitarras têm um magnetismo que causa curiosidade e atrai as pessoas para ouvirem o Evangelho.
  14. Criação de uma comunidade cheia do Espírito Santo, onde há evidente amor, sabedoria e poder. (Atos 2-8).
  15. Pregando nas sinagogas, lugares de oração, o Areópago local ou local de discussão e reunião, como Paulo fez em Atos.
  16. Começando com aqueles que forem culturalmente mais próximos do falante e tiverem a melhor chance de compreender a mensagem, por exemplo, Paulo e os judeus.
  17. Movendo-se para redes e grupos que são mais receptivos ao evangelho. Quando os judeus recusaram a mensagem de Paulo, ele então foi para os gentios da cidade. Paulo parecia ter uma visão bastante pragmática e não perdeu muito tempo em áreas resistentes mas em vez disso foi onde houve "uma porta aberta para o ministério eficaz" (1 Coríntios 16:9)
  18. Ministério de libertação e lidar com magia e ocultismo como uma forma de demonstrar o poder superior do evangelho. (Atos 19:11-20)
  19. Fundar uma instituição de ensino. Ensinar a partir de um ponto central e acessível na cidade, como quando Paulo ensinou a partir da escola de Tirano, em Éfeso (Atos 19:9,10). Ou a partir de seus próprio quarto alugado em Roma. (Atos 28)
  20. Criação de redes de igrejas alimentadas a partir de uma cidade central, de modo que a área suburbana e rural circundante seja completamente evangelizada como Éfeso e arredores foram  (Atos 19: 9,10).
  21. Nomear bem discipulados pastores "itinerantes" que preguematravés da rede de contatos e igrejas como Paulo fez com Timóteo em Éfeso.
  22. Treinamento de lideranças urbanas, como Paulo fez com os anciãos de Éfeso (Atos 20)
  23. Hospitalidade para a rede de irmãos e contatos, como Filemom parece ter praticado. (Filemom 1:5,22)
  24. Livros e ministério de literatura – evangelizando e disseminando informações e encorajamento que fluam ao longo da rede de cidades interconectadas. Lidar com questões específicas, por escrito, por exemplo, as epístolas de Paulo.
  25. Capacitar igrejas domésticas em networking, ou criação de redes de relacionamento, para que, juntas, elas não se tornem autocentradas e isoladas. Mantendo os cristãos na cidade em contato uns com os outros e com os cristãos em outras cidades e redes. Isso faz parte da finalidade das saudações nas epístolas de Paulo.

A seleção de suas estratégias
Vá até a lista acima e por hora risque fora as estratégias que simplesmente não se aplicam à sua situação.
Vá até o restante e agrupe-as avaliando como faria um ajuste entre todas.
Reflita sobre seus próprios chamados e dons.
Selecione um grupo de estratégias que você pode começar a trabalhar.
Tome um item de cada vez avaliando "quem, o quê, quando, onde, como e por que", como no exemplo abaixo.

Formação Estratégica- liderança urbana
Quem - são os líderes que quero treinar?
O que - vou ensiná-los? Quais os recursos que eu preciso para fazer o treinamento?
Quando - eu vou praticar o treinamento?
Onde - vou realizar o treinamento?
Como - Vou realizar o treinamento? Métodos educacionais etc.
Por que - estou fazendo isso? Deus está realmente nisso?
Depois de ter feito isso as melhores estratégias para o seu ministério devem tornar-se claras para você, e você deve ter alguns bons planos que possa implementar.

Nota de Veredas Missionárias:
Este texto serve apenas de base e reflexão bíblica para a implantação e aprimoramento de ministérios urbanos e, claro, em quaisquer contextos oportunos. Você deve refletir e buscar sempre novas estratégias e formas de alcançar com sabedoria os perdidos, bem como unir e edificar os cristãos circundantes.
Outras boas iniciativas de ministério urbano podem ser as visitas a presos e encarcerados, e pessoas em situação de vulnerabilidade (veja o caso das capelanias carcerárias e hospitalares), como recomendado em Mt 25.36 e Hb 13.3.

Também o ministério voltado para refugiados e imigrantes, conforme Ex 22.21-24 e 23.9; Dt 10.19.

Fonte: Veredas Missionárias e agradecimento.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

A Teologia Bíblica da Vocação e Chamada - Reflexão e Prática

A Teologia Bíblica da Vocação e Chamada - Reflexão e Prática
três pressupostos fundamentais, nas Escrituras, sobre a Teologia Bíblica da Vocação e Chamada que devem ser considerados, apriori, em qualquer análise: Primeiro, que as duas expressões, “Vocação” e “Chamada”, são uma só e a mesma coisa.

Ambas provêm do verbo grego kaleo que significa “chamar ou convocar”. Tanto que, neste artigo, ambas são tratadas como uma unidade só. Segundo, que a Bíblia se reporta a duas naturezas diferentes de Vocação e Chamada: A “Vocação e Chamada Geral”, na qual podemos afirmar que todos os crentes são chamados, ou seja, todos os crentes são vocacionados e a “Vocação e Chamada Específica”, na qual Deus escolhe, a dedo, no tempo e no espaço, pessoas especialmente dotadas para trabalhos e ministérios específicos, na igreja e fora dela. Terceiro, a Chamada e Vocação Geral, é feita independentemente dos dons, talentos, habilidades e preferências de cada um. Todos, sejam quais forem os seus dons e capacidades, têm a mesma e única incumbência. Já, a Chamada e Vocação Específica, aquela que acontece no tempo e no espaço, leva em conta os dons e talentos de cada um, bem como suas tendências, suas preferências, e com eles e elas se harmoniza.
A igreja, como agência, por excelência, do reino de Deus, na terra, deve estar atenta a essas duas naturezas de Vocação e Chamada, dando a ambas o mesmo enfoque, com a mesma intensidade, sem jamais privilegiar ou priorizar uma em detrimento da outra. Deus convoca tanto cada crente, membro da igreja, para fazer o trabalho de evangelismo e assistência social, em sua vizinhança (sua Jerusalém), como convoca também crentes devidamente dotados para fazer missões além das fronteiras geográficas, culturais e linguísticas da igreja. A tarefa da igreja é, portanto, mundial, e sua visão deve ser a visão do “Todos”, conforme os textos da Grande Comissão, desde Jerusalém até os confins da terra.
As duas naturezas da Vocação e Chamada de Deus, nas Escrituras, podem ser vistas claramente, sem muito exercício de hermenêutica, tanto no Velho quanto no Novo Testamento. Se não, vejamos:

A VOCAÇÃO E CHAMADA GERAL, DE ISRAEL, NO VELHO TESTAMENTO
•    “Agora, portanto, se ouvirdes atentamente a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis minha propriedade exclusiva dentre todos os povos, porque toda a terra é minha; mas vós sereis para mim reino de sacerdotes e nação santa. Essas são as palavras que falarás aos israelitas.” (Êxodo 19.5,6)
•    “Mas agora, assim diz o SENHOR que te criou, ó Jacó, e que te formou, ó Israel: Não temas, porque eu te salvei. Chamei-te pelo teu nome; tu és meu... Porque eu sou o SENHOR, teu Deus, o Santo de Israel, o teu Salvador... Visto que és precioso aos meus olhos e digno de honra, e porque eu te amo, darei pessoas por ti e os povos pela tua vida... Não temas, porque eu sou contigo... Vós sois as minhas testemunhas, diz o SENHOR, e o meu servo, a quem escolhi,” (Isaias 43.1-10)
•    “Pois, irmãos, não quero que ignoreis que nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem, e todos passaram pelo mar. Todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar.” (1Coríntios 10.1,2)
Por essa Chamada e por essa Vocação, toda a nação de Israel, assim como cada israelita, individualmente, participava da aliança que Deus tinha feito com o povo. Por essa aliança, cada judeu tinha a incumbência de testemunhar do Deus vivo e verdadeiro, criador do céu e da terra, às demais nações que os circundavam.

A VOCAÇÃO E CHAMADA ESPECÍFICA, NO VELHO TESTAMENTO
Abraão: “E o SENHOR disse a Abrão: Sai da tua terra, do meio dos teus parentes e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei. E farei de ti uma grande nação, te abençoarei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção.” (Gênesis 12.1,2)
Moisés: “Agora, portanto, vai. Eu te enviarei ao faraó, para que tires do Egito o meu povo, os israelitas. Então Moisés disse a Deus: Quem sou eu para ir ao faraó e tirar os israelitas do Egito? Deus lhe respondeu: Certamente eu serei contigo, e isto será um sinal de que eu te enviei: Quando houveres tirado o meu povo do Egito, prestareis culto a Deus neste monte.” (Êxodo 3.10-12)
Josué: “Depois da morte de Moisés, servo do SENHOR, este falou a Josué, filho de Num, auxiliar de Moisés: Meu servo Moisés está morto; prepara-te agora, atravessa este Jordão, tu e todo este povo, para a terra que estou dando aos israelitas. Ninguém poderá te resistir todos os dias da tua vida. Como estive com Moisés, assim estarei contigo; não te deixarei, nem te desampararei. Esforça-te e sê corajoso, porque farás este povo herdar a terra que jurei dar a seus pais.” (Josué 1.1-2, 5-6)
Gideão: (Juízes 6.11-16) “Então o anjo do SENHOR veio e sentou-se sob o carvalho que estava em Ofra, que pertencia ao abiezrita Joás; seu filho Gideão estava malhando trigo no tanque de espremer uvas, para escondê-lo dos midianitas” (v.11). “Então o anjo do SENHOR apareceu a Gideão e disse: O SENHOR está contigo, homem valente.” (v.12). “O SENHOR virou-se para ele e lhe disse: Vai nesta tua força e livra Israel das mãos dos midianitas. Não sou eu que estou te enviando?” (v.14)
Samuel: “E Eli disse a Samuel: Vai deitar-te, e se ele te chamar, diz: Fala, SENHOR, pois o teu servo ouve. Samuel foi e deitou-se no seu lugar. Depois disso, o SENHOR voltou, permaneceu ali e chamou como das outras vezes: Samuel! Samuel! Então ele respondeu: Fala, porque o teu servo ouve.” (1Samuel 3.9,10)
Davi: “Jessé mandou buscá-lo e o apresentou a Samuel. Ele era ruivo, de belos olhos e de boa aparência. Então o SENHOR disse: Levanta-te e unge-o, porque é este mesmo (grifo meu). Então Samuel pegou o vaso de azeite e o ungiu diante de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do SENHOR se apoderou de Davi. Depois, Samuel se levantou e foi para Ramá.” (1Samuel 16.12,13)
Isaías: “Depois disso, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei? Quem irá por nós? Eu disse: Aqui estou eu, envia-me.” (Isaías 6.8)
Jeremias: “Antes que eu te formasse no ventre te conheci, e antes que nascesses te consagrei e te designei como profeta às nações. Então eu disse: Ah, SENHOR Deus! Eu não sei falar, pois sou apenas um menino. Mas o SENHOR me respondeu: Não digas: Sou apenas um menino; porque irás a todos a quem eu te enviar e falarás tudo quanto eu te ordenar". (Jeremias 1.5-7)
Daniel, Hananias, Misael e Azarias: “ Então o rei disse a Aspenaz, chefe dos seus oficiais, que trouxesse alguns dos israelitas da família real e dos nobres, jovens sem defeito algum, de boa aparência, dotados de sabedoria, inteligência e instrução, e com capacidade para servir no palácio do rei; e disse-lhe que lhes ensinasse a cultura e a língua dos babilônios. Entre eles se achavam alguns vindos de Judá: Daniel, Hananias, Misael e Azarias. O chefe dos oficiais lhes deu outros nomes: a Daniel, o de Beltessazar; a Hananias, o de Sadraque; a Misael, o de Mesaque; e a Azarias, o de
Abednego". (Daniel 1.3-4, 6-7)
Amós: “Amós respondeu a Amazias: Eu não sou profeta, nem seguidor de profeta, mas criador de gado e cultivador de sicômoros. Mas o SENHOR me tirou da criação de gado! O SENHOR me disse: Vai, profetiza ao meu povo Israel.” (Amós 7.14,15
Outros: como os profetas menores, por exemplo.

A VOCAÇÃO E CHAMADA GERAL DA IGREJA NO NOVO TESTAMENTO
•    “Mas vós sois geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, para que anuncieis as grandezas daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz.” (1Pedro 2.9)
•    “Ele nos salvou e nos chamou com uma santa vocação, não por causa das nossas obras, mas devido ao seu propósito e à graça que nos foi concedida em Cristo Jesus antes dos tempos eternos”. (2Timóteo 1.9)
•    “Vós sois o sal da terra; mas se o sal perder suas qualidades, como restaurá-lo? Para nada mais presta, senão para ser jogado fora e pisado pelos homens.” (Mateus 5.13)
•    Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte. (Mateus 5.14)
Por essa Vocação e Chamada Geral, não somente a igreja como um todo, mas cada crente em
particular, está devidamente chamado e convocado para dar o testemunho de Cristo, ser o sal da
terra e a luz do mundo, e servir ao Senhor segundo os seus dons, onde estiver e para onde for.

A VOCAÇÃO E CHAMADA ESPECÍFICA NO NOVO TESTAMENTO
Pedro, André, Tiago e João: “Andando às margens do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando as redes ao mar, pois eram pescadores. E disse-lhes: Vinde a mim, e eu vos farei pescadores de homens. Imediatamente, eles deixaram as redes e o seguiram. Passando mais adiante, viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão
João. Ambos estavam num barco com seu pai Zebedeu, consertando as redes. E Jesus os chamou. Imediatamente, deixando o barco e seu pai, seguiram-no.” (Mateus 4.18-22)
Levi (também chamado Mateus) “Quando ia passando, viu Levi, filho de Alfeu, sentado na coletoria, e disse-lhe: Segue-me. E, levantando-se, Levi, o seguiu.” (Marcos 2.14)
Os doze: “ Depois Jesus subiu a um monte e chamou os que ele mesmo quis (grifo meu); e estes foram até ele. Então designou doze para que estivessem com ele, e os enviasse a pregar, e para que tivessem autoridade para expulsar demônios. Estes são os doze que ele designou: Simão, a quem deu o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João, aos quais deu o nome de Boanerges, que significa filhos do trovão; André; Filipe; Bartolomeu; Mateus; Tomé; Tiago, filho de Alfeu; Tadeu; Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que o traiu.” (Marcos 3.13-19)
Paulo: “Quando Deus, porém, que desde o ventre de minha mãe me separou e me chamou pela sua graça, se agradou em revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, não consultei ninguém. (Gálatas 1.15,16). “Ele me disse: Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios.” (Atos
22.21)
Paulo e Barnabé: “Na igreja em Antioquia havia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, que havia crescido com o governante Herodes, e Saulo. Enquanto cultuavam o Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse: Separai-me Barnabé e Saulo para a obra para a qual os tenho chamado. Então, depois de jejuar, oraram e lhes impuseram as mãos; e deixaram que partissem.” (Atos 13.1-3)
Timóteo: “Dirijo essa orientação a ti, meu filho Timóteo, levando em consideração o que as profecias anunciaram a teu respeito; com base nelas, trava o bom combate” (1Tomóteio 1.18) “Não deixes de desenvolver o dom que há em ti, que te foi dado por profecia, com a imposição das mãos dos presbíteros” (1Timóteo 4.14)
Judas (chamado Barsabás) e Silas: “Então pareceu bem aos apóstolos e aos presbíteros, com toda a igreja, escolher homens dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé. Foram escolhidos Judas, chamado Barsabás, e Silas, homens influentes entre os irmãos.” (Atos 15.22)
Outros: Como Epafrodito, Erasto, Silvano, Filemon e demais companheiros de Paulo.

VOCAÇAO E CHAMADA E SUA RELAÇÃO COM OS DONS ESPIRITUAIS
Na Vocação Geral, como já dissemos, todos os crentes estão incumbidos e comprometidos com o testemunho de Cristo, independentemente dos dons espirituais que tenham recebido do Espírito Santo. Já, na Vocação Específica, há uma harmonia entre o chamado de Deus e os dons espirituais recebidos pela pessoa chamada. Quando a Bíblia preconiza que todos os crentes são vocacionados, ela o faz na base dos dons espirituais que cada um recebe, dons, esses, correspondentes com os ministérios que irão exercer.
Essa correspondência entre dom e chamada pode ser constatada facilmente nos exemplos das chamadas específicas já demonstradas, tanto no Velho como no Novo Testamento. Deus não chama pessoas para determinados ministérios sem que elas tenham os dons correspondentes para exercê-los, nem mesmo sem que elas tenham talentos, aptidões, tendências e até mesmo preferências e “jeito” por tal ministério.
Por isso, convocações de caráter muito geral e envio aleatório de pessoas para campos missionários, do tipo “f altam cinco pessoas para compor o grupo que vai para o país tal” sem se levar em conta os dons dos convocados, são convocações temerárias. Elas podem trazer problemas tanto para os campos missionários para onde cada elemento vai, como para o próprio elemento, com o perigo de desencorajá-lo mais do que incentivá-lo.
Estamos vivendo uma época em que convocações de missionários temporários e voluntários em missões tornaram-se muito comuns. Igrejas têm enviado grupos e até caravanas para campos missionários, esperando que lá todos façam missões. A iniciativa não é má, em si. Mas, corre-se sempre o risco de enviar gente que nunca teve um chamado específico e nem tem os dons necessários para os trabalhos a que está se propondo.
Convocação missionária é coisa séria e não pode ser feita na base de impactos, sensacionalismo e emoções, e os alvos dos convocados devem ser bem definidos. Sem exagero, é possível até que alguns aproveitem a ocasião para fazer turismo, especialmente se o campo missionário proposto for algo exótico ou se for mesmo um ponto turístico. Tive oportunidade de verificar isso no meu próprio campo missionário entre os índios Xerente, no Tocantins, o que, obviamente, não é o caso de narrar aqui. Tenho ouvido, entretanto, mais do que uma vez, testemunho de gente que esteve em campo missionário e demonstrou, em palavras e gestos, o quanto estava alheia à realidade do que estava fazendo. Certa vez ouvi o testemunho de um jovem que serviu por um tempo como voluntário num
desses conhecidos trabalhos com dependentes químicos. Quando ele chegou à parte da história onde tinha até que “dar banho” em alguns dos dependentes químicos, ele deixou transparecer, no rosto e em suas palavras, a sua “repugnância” pelo trabalho que havia feito. Uma grande pena, pois seria exatamente num serviço como esse que uma pessoa dotada para a função, demonstraria seu amor, seu carinho, sua compaixão pelo dependente químico, levando-o a entender o amor de Cristo e ter sua vida por ele transformada.
É bom que a igreja envolva toda a sua membresia no trabalho de evangelização e missões, mas deve-se tomar o cuidado de não se introduzir pessoas em campos missionários e em outros trabalhos, fora de seus dons espirituais e de sua proficiência.

UMA VEZ QUE TODOS SÃO CHAMADOS E CONVOCADOS, PODEMOS DIZER QUE TODOS SÃO MISSIONÁRIOS?
Ora, ninguém pode dizer “sim” ou “não” com absoluta segurança hermenêutica, já que as palavras “missão” e “missionário” não se encontram na Bíblia, no Novo Testamento Grego. Aparece, sim, a palavra “missão” em dois versículos da Bíblia, em algumas versões em Português. Em Atos 12.25, por exemplo, quando Barnabé e Saulo voltam de Jerusalém para Antioquia, a Bíblia Sagrada Almeida Século 21 diz: “E, havendo concluído sua missão (grifo meu), Barnabé e Saulo voltaram de Jerusalém, levando consigo João, também chamado Marcos”. Mas ali, a palavra “missão” é a tradução da palavra diaconia, do grego, de onde vem nossa palavra “diácono” que significa “serviço”. Esta passagem não indica, portanto, que a palavra “missão” esteja no Novo Testamento.

O outro texto onde a palavra “missão” aparece é 1Timóteo 2.15, falando da missão de mãe ao dar à luz filhos. Ali algumas versões dizem: “cumprindo a sua missão de mãe” e outras dizem: “dando a luz filhos”. O texto grego traz a palavra teknogonias (junção das palavras teknon filho’ + gonias, que vem de gune ‘mulher’). Assim, este também não serve para a nossa análise. O que nos resta, então? Resta fazer uma análise da palavra “missão” a partir do Latim, pois foi depois que a Bíblia foi traduzida para essa língua que o costume de chamar os “enviados” de missionários, começou a ser usado e se internacionalizou.
No Latim, a palavra “missão” é missio e “missionário” vem de mittere, que significa “enviar”. Ora, a palavra “enviar”, é muito comum no Novo Testamento Grego, já que ali ela é expressa pela palavra apostello, muito conhecida nossa, de onde vem a palavra “apóstolo” que significa justamente “enviar”. Assim, podemos dizer, com segurança, que, se a palavra “missionário” não se encontra na Bíblia, o seu
significado permeia toda a Escritura, do Gênesis ao Apocalipse. É por isso que a maioria dos estudiosos dos dons espirituais colocam a palavra “missionário” como um dom (ou uma função) e a associa à palavra apóstolo, para se referir a pessoas que recebem o dom e a chamada de Deus para iniciar o trabalho em campos ou em situações pioneiras, seja nas circunvizinhanças da igreja, seja em campos distantes, seja em qualquer outro lugar no reino de Deus.
Buscando ainda o sentido das palavras “missão” e “missionário”, vejamos como o Dicionário Aurélio as define:
Missão: “Função ou poder que se confere a alguém para fazer algo; encargo, incumbência. 2. Função especial da qual um governo encarrega diplomata (s) ou agente (s) junto a outro país; comissão diplomática. 3. O conjunto das pessoas que receberam um encargo religioso, científico, etc. 4. Ofício, ministério. 5. Obrigação, compromisso, dever a cumprir. 6. Prédica ou sermão doutrinal. 7. estabelecimento, instituição ou instalação de missionários para pregação da fé cristã. 8. Os missionários”

Missionário: “Aquele que missiona; pregador de missões. 2. Propagandista, defensor, propugnador. 3. Relativo ou pertencente às missões.
Vamos tentar aclarar um pouco mais a ideia, falando de missionário no sentido “Geral” e “Específico”, como vimos fazendo até aqui com o assunto da vocação. Vamos dizer que num sentido geral, todos os crentes são missionários porque todos têm uma missão a cumprir, seja em campos missionários, seja no contexto de suas igrejas, seja em suas profissões seculares. Mas, no sentido específico, em que alguém deixa sua cidade, seu estado, seu país, ou deixa sua profissão, seu ganha-pão, para servir a Deus em outro lugar ou numa outra situação, de forma definida, esse alguém é missionário. Os demais que continuam exatamente onde estão, fazendo o que sempre fizeram, continuam sendo chamados e vocacionados, sim, no sentido geral, comprometidos que são com o seu testemunho cristão, mas não é próprio chamá-los necessariamente de missionários.
Vamos dar alguns exemplos: Imaginemos três moças, todas elas com a profissão de professora em escolas públicas, todas com aptidão para trabalhar com crianças e todas da mesma igreja. Vamos dizer que uma delas decida trabalhar com as crianças da igreja nos horários convencionais, e faça isso sempre, com muito amor e carinho e com muita dedicação, mantendo, contudo, sem alteração, sua função de professora pública, seu estilo de vida, etc. etc. Essa irmã estará certamente cumprindo a sua vocação geral, usando o seu dom no contexto da igreja e é, indubitavelmente, uma obreira do Senhor.

Mas, não seria próprio chamá-la de missionária, necessariamente, não obstante à sua dedicação ao que faz.
A outra, entretanto, percebe logo os problemas enfrentados pelas crianças nas varias escolas públicas da cidade e decide formar uma associação para ajudar essas crianças. Vê que o trabalho irá exigir seu tempo integral, de modo que se demite da sua função de professora pública para se dedicar exclusivamente à associação. Incontinente, sua igreja decide adotá-la, dando a ela um sustento correspondente ao seu salário de professora pública (que, por sinal, aqui entre nós, não seria muita coisa...). Essa irmã não pode ser considerada simplesmente como uma pessoa crente que usa os seus dons e talentos no contexto de sua igreja. É evidente que ela está fazendo e iniciando muitas coisas novas: Primeiro, ela está iniciando um novo movimento fora das fronteiras de sua igreja, está colocando novos fundamentos na Educação, em termos de Comunidade, em termos de Município, e está sendo uma pioneira naquela iniciativa cristã. Segundo, ela passa a ser uma espécie de embaixatriz de sua igreja, na comunidade. Esta é uma missionária em todos os sentidos da palavra.

A terceira tem a sua classificação mais fácil ainda de se definir, porque irá receber o chamado de Deus para trabalhar com crianças num Lar de Crianças no interior do Brasil, a qual será também, certamente, adotada pela igreja.
Outro exemplo: A igreja tem um missionário que trabalha num certo país, fora do Brasil. De vez em quando ela manda uma equipe formada pelos membros da igreja para colaborarem, de alguma maneira, no trabalho do missionário. Ficam lá uma semana, duas, um mês, e depois voltam, cada um para o seu lugar e para a sua função anterior. Daí, eles passam a chamar todos os membros da equipe de “nossos missionários” e passam a dizer que a igreja está fazendo missões, através deles. Bem, que eles estiveram num campo missionário por um tempo e deram cada um a sua colaboração, de alguma maneira, é verdade; que eles viram e experimentaram as coisas que existem por lá, também é verdade; que eles fizeram seu papel de crentes dedicados, não há dúvida, mas chamá-los de missionários, não seria apropriado.

Alguns de meus filhos (tenho sete) tiveram a oportunidade de exercer ministério na aldeia onde trabalho: Alberto ensinou violão, Sílvia ensinou flauta doce, Daniel e sua esposa Monique deram o curso “Casados Para Sempre” e Suely, com seu esposo Tércio, ministraram várias palestras para casais. Mas nenhum deles sequer pensou, de si mesmo, que fosse um missionário.
Outro exemplo ainda: A igreja tem um grupo que gosta de fazer trabalhos sociais. Eles visitam Lares de Crianças, em sua própria cidade, distribuem brinquedos e usam da oportunidade para pregarem o evangelho para as crianças. Eles fazem isso com muito amor e carinho e com muita dedicação, é claro. Você acha que eles estão apenas cumprindo sua vocação e chamada geral, estão apenas usando os seus dons e talentos no contexto da igreja para abençoar as pessoas da comunidade, com seu trabalho social, ou você acha que eles podem também ser chamados de missionários? Deixo com você a resposta...

Continuando com essa ideia, a gente até poderia dizer que chamar todos os crentes de missionário, esteja certo ou errado, isso não faria mal a ninguém. Sim, mas seria muita ingenuidade pensar assim... Veja no próximo tópico o que a concepção “todos são missionários” pode causar.

NOVAS TENDÊNCIAS DE INTERPRETAÇÃO BÍBLICO/MISSIONÁRIA E SUAS AÇÕES EVANGELÍSTICAS
Tenho ouvido, tanto quanto tenho lido e constatado, que há uma nova tendência de interpretação bíblico/missionária em cena, surgida nessas últimas décadas. Essa nova tendência está se alastrando e se enraizando, aceleradamente, nas práticas de muitas de nossas igrejas e até mesmo nas práticas de algumas agências missionárias. Ela representa uma nova concepção de missões que tende a diminuir o valor e a necessidade do missionário de carreira, tende a diminuir o valor e a necessidade de um preparo missionário adequado, tende a eliminar a realidade das chamadas específicas, no tempo e no espaço, tende a restringir a responsabilidade da igreja unicamente à comunidade onde ela se encontra inserida e tende ainda a determinar preferências, nos alvos da evangelização, a certos seguimentos da sociedade. Sua atuação se concentra mais nos problemas urbanos, com muito pouca ou nenhuma visão e entendimento do trabalho transcultural da igreja.
Essa nova tendência missionária, para a qual já existe uma boa quantidade de literatura, ensino, pregação, etc. tem apresentado várias configurações e interpretações bíblicas diferenciadas. Algumas delas eu ouvi pessoalmente e, sobre outras, eu li. Vou mencionar algumas, porém, sem citar as fontes das quais eu li, para não melindrar ninguém. Mas é fácil ver como todas essas novas tendências vêm da falta de um entendimento mais correto da verdadeira teologia bíblica da vocação e chamada:


1.    Chamada missionária específica, não existe: Há os que dizem, hoje, que chamada missionária específica não existe, porque todos os crentes são chamados, porque todos os crentes são missionários. Eles dizem também que trabalho missionário não deve ser feito por uma “minoria” (referindo-se aos missionários de carreira de modo um tanto pejorativo), mas que o trabalho missionário deve ser feito pela igreja como um todo. Afirmam ainda que somente no primeiro século missões foi praticada de modo correto e que depois (referindo-se aos dois mil anos da História de Missões) a prática foi desvirtuada, porque não foi feita pela igreja, mas por agências missionárias, por movimentos missionários e por missionários de carreira, a quem chamam de “intenção de uma minoria”, afirmando, no fim, que esse movimento foi “desastroso”... Li isso numa apostila de Teologia Bíblica de Missões, de um curso que foi dado em Seminário formador de bacharéis em Teologia. A apostila, por sua vez, citava a fonte da informação. Tratava-se de um escritor credenciado e de uma editora de renome.


2.    Vocação missionária não difere de vocação profissional: Alguns afirmam que vocação
missionária não difere de qualquer vocação profissional (médico, engenheiro, advogado, etc.) nem mesmo difere da vocação (ou missão) de uma mãe ao dar à luz filhos e educá-los. Ora, se isso fosse verdade, o que teria sido da revelação bíblica se Abraão tivesse optado pela sua antiga profissão de criador de gado e tivesse ficado na Mesopotâmia? E se o mesmo tivesse acontecido com Moisés, Davi, Amós e outros da antiga aliança, culminando com Pedro, André, Tiago e João, nos Evangelhos, e Paulo, em Atos, todos eles preferindo continuar na profissão que exerciam antes? No meu caso, igualmente, que teria sido de boa parte do trabalho Xerente se eu tivesse optado por ficar em São Paulo continuando a exercer a minha antiga profissão de balconista de calçados e de aluno de violão clássico? É claro que todas as profissões são honrosas e qualquer profissional pode servir a Deus em sua profissão e cumprir, assim, a sua vocação de ser uma testemunha de Jesus Cristo. Mas dizer que chamada missionária (ou pastoral ou outras) é a mesma coisa que a escolha de uma profissão, não é nem bíblico nem coerente com a realidade. O difícil para eu entender isso foi que essa interpretação de missões eu li num livro escrito igualmente por um autor credenciado e publicado também por uma editora de renome.Para citar um exemplo concreto, ano passado fui assistir à uma cerimônia de lançamento de um livro. Um livro muito bem escrito, por sinal, sobre o evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. O escritor é um odontólogo, membro atuante em sua igreja e apaixonado pela pregação do evangelho. Ele costuma fazer estágios em aldeias indígenas, de quando em quando, juntamente com sua esposa que é enfermeira, abençoando os índios com suas profissões. Comprei oito livros dele. Um pra mim e sete para os sete líderes da igreja Xerente da aldeia onde trabalho. Em agosto, do ano passado, eles estiveram lá na aldeia fazendo tratamento dentário, que é uma das grandes necessidades dos Xerente. Quando chegaram à aldeia, já eram conhecidos da liderança da igreja através do livro, o qual todos já tinham lido e gostado. Eles foram calorosamente recebidos pelos índios, que pediram para eles voltarem para continuar o tratamento. Mas eles nem pensam, sequer,
em fazer qualquer comparação entre a vocação deles e a nossa. Eis aí duas vocações bem diferentes, em termos de função, mas, diante de Deus, duas vocações exatamente iguais, diria eu, em termos de qualidade.


3.    O envio de missionários está caindo em desuso: Ouvi, de fonte fidedigna, que certo pastor de uma grande igreja no Brasil, disse a um vocacionado de sua igreja que desejava partir para um campo missionário, que sua igreja não enviava missionários. Que sua igreja fazia missões como um todo. Disse ainda que se ele quisesse, ele poderia se mudar para o lugar no qual estava pensando, exercer sua profissão lá, dar o seu testemunho, ganhar convertidos, etc. e, quando chegasse a hora de se construir templos, etc. então a igreja iria fazer a sua parte. Mas, enviar e sustentar missionários, era coisa que sua igreja não fazia...


4.    Convocar missionário de carreira também está caindo em desuso: Ouvi, também de fonte fidedigna, que certo líder de Missões disse, em uma de suas apresentações, numa grande igreja, que não convocava mais missionários permanentes, porque missionários permanentes, segundo ele, não existem mais. Ele só convocava missionários temporários e voluntários em missões.


5.    A restrição geográfica da Grande Comissão: Há certos modelos de igreja que focalizam, de modo exagerado, sua responsabilidade missionária para com a comunidade onde está inserida (sua Jerusalém). Ora, isso não é mal, em si, mas o exagero pode levar a igreja a perder a visão do “todo”, como Jesus colocou na Grande Comissão: “todo o mundo ”, “toda criatura” e “todas as nações” e como lemos em Atos 1.8: “Jerusalém ”, “toda a Judéia” e “confins da terra”. Li, certa vez, no site de uma grande igreja, lá no link onde eles colocam o título “nossa visão” a expressão: “Nossa Comunidade”. Ora, a comunidade é muito importante, mas a visão deve ser mundial. Essas igrejas que deixam missões distantes de fora, costumam dar a categoria de “Missões” a todo trabalho que fazem em sua Jerusalém. Trabalhos que outrora eram feitos sob a égide do evangelismo, por exemplo, e os que eram feitos sob a égide da assistência social, passam a ser feitos sob a égide de “Missões”. Isso dá a impressão de que a igreja é uma igreja missionária, com um movimento missionário muito grande, mas, o resto do mundo, é esquecido... Esse procedimento missionário é muito diferente do que diz, por exemplo, Ralph Winter:

“Evangelismo é a prática da evangelização feita dentro do âmbito geográfico e cultural da igreja. Missões é a prática da evangelização feita além das fronteiras da igreja, onde ela cruza barreiras geográficas, culturais e às vezes linguísticas”. (Missões Transculturais - Uma Perspectiva Histórica, pp. 357-398)

Na ordem de Jesus não há primazia em termos geográficos. Jerusalém e os confins da terra devem ser alcançados simultaneamente. O mesmo Jesus que disse ao endemoninhado gadareno: “... Vai para casa, para a tua família, e anuncia-lhes quanto o Senhor fez por ti e como teve misericórdia de tf (Marcos 5.19), disse a Paulo: “ ... Vai, porque eu te enviarei para longe, aos gentios.” (Atos
22.21).


6.    A restrição ideológica da Grande Comissão: Alguns não estão restringindo a Grande Comissão em termos geográficos, necessariamente, mas estão restringindo-a em termos ideológicos. Há igrejas e movimentos missionários que estão estabelecendo preferências quanto ao tipo de pessoas a serem alcançadas pelo evangelho. Ultimamente tenho consultado vários sites de igrejas, procurando neles a visão missionária de cada uma. Tenho descoberto que a maioria dos sites de igreja nada trazem sobre missões. Outros falam de missões, porém, com apenas alguns projetos restritamente selecionados, bem ao gosto da liderança da igreja. São poucas as igrejas que apresentam, em seu site, um Conselho Missionário e alistam, ali, os missionários adotados pela igreja. Vi apenas um (talvez haja outros) que apresentava seu Conselho Missionário, alistava todos os missionários adotados pela igreja e ainda postava as últimas cartas de notícia de cada missionário. Num determinado site, porém, lendo o link sobre “nossa missão”, percebi que os dois primeiros pontos estavam muito bem colocados. Mas o último dizia: “dandopreferência aos que estão em situação de risco’”. Ora, a visão daqueles que estão em situação de risco, neste mundo, não obstante ser necessária, se for exagerada e, especialmente, se for exclusiva, tirará da igreja a visão do “todos” e a igreja deixará as demais pessoas do mundo fora do projeto missionário de Deus. Neste caso, onde ficam as pessoas sadias, as que estão em situação segura neste mundo, as pessoas mais abastadas, pessoas da classe média/alta, pessoas de bem, enfim. Elas também não estão incluídas no projeto missionário de Deus? A Grande Comissão não é para “toda criatura”, conforme (Marcos 16.15)?
Mais um exemplo: Certo pastor, questionado sobre a evangelização dos índios, respondeu a seu inquiridor: - Ah, os indígenas estão bem. Eles têm muita terra pra plantar, tem todo apoio do Governo, das ONGs, etc. Eu prefiro ir atrás dos flagelados, disse... Isso, como se os indígenas não estivessem inseridos no contexto da Grande Comissão - “panta ta ethne” - ‘todas as etnias’. (Mateus 28.19). Ora, um indivíduo, visto que ele não pode ir, pessoalmente, pelo mundo todo e em direção a todas as pessoas, ele tem que fazer opções quanto ao seu ministério. No meu caso, por exemplo, eu optei pelos indígenas, deixando os demais nas mãos de Deus. Mas, uma igreja, como agência, por excelência, do reino de Deus, na terra, não pode fazer opções ou determinar preferências. Sua visão deve ser a visão do mundo todo, de todas as pessoas, de todas as nações.


7.    A teologia da Missão Integral com ênfase exclusiva nos pobres: Ora, que Missão Integral é a missão bíblica, e que é a única que espelha a “Missio Dei”, não há a menor dúvida. Mas o evangelho integral é para todos, não somente para os pobres. Muitos, com a exagerada preferência para os pobres, estão como que criando uma nova Teologia da Libertação. Certa vez eu estava fazendo uma palestra sobre esse assunto para um grupo de alunos de missões indígenas e perguntei se eles achavam que eu estava exagerando. Imediatamente, levantou-se uma veterana missionária aos índios e contou que certa igreja que a adotava por muito tempo, suspendera a adoção porque foi desafiada, depois de um determinado seminário, a transferir a quantia que ela recebia, mensalmente, para a compra de cestas básicas para os pobres...
O enfoque hoje sobre evangelização de pobres, flagelados e aqueles que estão, como dizem, em situação de risco, é grande e quase que exclusiva. Quando se lê, no dia de hoje, periódicos missionários e se ouve de igrejas e entidades que estão fazendo missões, é quase certo que a maioria está fazendo missões entre as classes menos privilegiadas.
Missões para as pessoas de bem, para os bons cidadãos, para os mais abastados, para aqueles que lotam nossos melhores restaurantes nos fins de semana, aqueles que enchem nossos lagos e litorais com seus barcos, iates e jet ski, missões para profissionais, artistas de rádio e televisão, desportistas, etc. está caindo em desuso. Até mesmo certas organizações que outrora exerciam papel preponderante no alcance dessas pessoas, estão hoje em declínio. Jesus não agiu assim. O mesmo Jesus que disse: “ O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar boas novas aos pobres... (Lucas 4.18a), gastou também o tempo necessário com um homem rico, Nicodemos, para colocar os pés dele para dentro do reino de Deus. (João 3.1-21). O que Jesus nos ensina com isso? Ensina que todo aquele que tem seus pés fora do reino de Deus, seja pobre ou rico, “está em situação de risco”...

Não queria entrar muito nesse assunto, mas preciso dizer que alguns estão equivocados sobre o sentido de Missão Integral. Acham que Missão Integral é missão para pobres. Puro engano! A Missio Dei é integral da primeira à última página das Escrituras. E isso para todas as pessoas, em todos os lugares e em todas as situações, independente de raça, cor, status social ou poder aquisitivo. As Escrituras jamais ofereceram para alguém, um evangelho dicotomizado. É claro que Missão integral inclui os pobres, mas não preferencialmente e muito menos exclusivamente. Missão Integral é como bem colocou Valdir Steuenager:
“O evangelho falava de mim e do outro, especialmente do pequeno e do pobre. O evangelho falava do corpo, da alma e do espírito. Ele falava da pessoa e dos sistemas e estruturas onde elas vivem. Falava do passado e do presente e apontava para o futuro de Deus. O evangelho mostrava um Jesus que anunciava e vivia o reino de Deus, e me convidava a segui-lo nas sendas da esperança desse reino.” (A Missão Integral nem é tão integral assim!), ultimatoonline [ultimato@ultimato.com.br], edição de 25/05/2014).
Missão Integral, ou MI, como a trata Steuenager, inclui os pobres, sim, mas inclui muito mais do que isso. Tem a ver com a estrutura de sociedade em que as pessoas vivem, sejam elas pobres ou ricas. Tem a ver com a história, a cultura e as tradições das pessoas. Tem a ver com corpo, alma e espírito e tem a ver, em ultima análise, com a visão do reino de Deus e não com visões particulares.
Em Xerente, por exemplo, não existe palavra para pobre e rico. O colega que fez a tradução do Novo Testamento para a língua Xerente, Pr. Guenther Carlos Krieger, teve que “fabricar” juntamente com sua equipe de tradutores nativos, expressões descritivas na língua indígena para essas duas palavras: Pobre, ficou: rom kõ tdêkwa ‘aquele que não é dono de nada, e rico, ficou: rom zawre tdêkwa ‘aquele que é dono de muitas coisas’. Mas a sociedade Xerente é igualitária e sua estrutura é essencialmente integrada. Lá não se faz as tradicionais dicotomias que fazemos por aqui, como material versus espiritual, religioso versus profano, animado versus inanimado, corpo versus alma, e assim por diante. Em Xerente, a palavra para alma 'dahêmba’ é usada também para corpo. Quando se quer fazer a diferença entre uma coisa e outra, tem-se que fazer uma “ginástica” linguística muito grande...
Assim, o único evangelho que serve para o Xerente é o evangelho integral. Menos que isso, não teria sido aceito, como foi, mesmo que lá não se fala de pobres e ricos. Certos estavam, pois, os organizadores do I Congresso de Evangelização Mundial, de Lausanne, Suíça, 1974, ao colocarem como tema do Congresso, o slogan: “O evangelho todo, para o homem todo no mundo todo”.
Agora, se estamos falando de “Responsabilidade Social da Igreja”, isso é outro assunto. A preocupação e a responsabilidade social com os pobres, viúvas e outros, é um mandamento bíblico tanto no Velho Testamento como no Novo. Todo esforço que a igreja fizer para aliviar as dores daqueles que não somente carecem da mensagem da vida eterna, mas vivem miseravelmente neste mundo, sem as regalias dos demais, é pouco. Mas, priorizá-los, em detrimento dos demais, negando a esses as chaves que abrem as portas do reino de Deus, não é fazer missões, segundo a Bíblia. Aprendi, na minha experiência com os Xerente que “Missão Integral” é uma coisa e “Responsabilidade Social da Igreja” é outra. Assim, desafio aqui os teólogos para elaborarem estudos mais aprofundados sobre o assunto...


8.    Ações missionárias inspiradas em programas humanitários: Por fim, parece que muitos estão apenas imitando os movimentos de assistência social levados a efeito pelas emissoras de rádio e televisão, pelos empresários, desportistas e especialmente pela Rede Globo, movimentos esses muito bem divulgados pela mídia. Muitos dos trabalhos sociais de certas igrejas e movimentos missionários não diferem muito do que essas instituições vêm fazendo. Essa prática seria o resultado de falta de iniciativa, falta de uma visão mais ampla das Escrituras, ou seria mesmo só uma questão de ibope?... Outro dia eu estava pensando nas crianças indígenas que precisam ser preparadas para o contato com nossa civilização, que será tanto mais complexo quando elas chegarem à idade adulta. Falei isso com alguém e logo veio a pergunta: Mas não há ninguém pensando nisso? Respondi: Não há, mas eu garanto que se a Globo, por exemplo, iniciasse um programa com crianças indígenas, no Brasil, é certo que um número enorme de igrejas e de agências missionárias evangélicas iria correr atrás do assunto e fazer o mesmo...
Ora, o resultado de tudo que se disse acima, é que agências missionárias transculturais que precisam de missionários de carreira e bem preparados, como também as próprias escolas de preparo missionário sério, estão sentindo a falta de obreiros, estão sentindo a falta de candidatos. Com isso, trabalhos transculturais estão sendo prejudicados, o sustento dos missionários de campo tem diminuído, tanto quanto tem sido difícil mantê-lo e o número de missionários de carreira convocados é quase ínfimo, diante da convocação em massa de missionários temporários e de voluntários em missões. A pergunta é: Por que descurar de uma atividade missionária para incrementar outra? Não poderíamos fazer ambas as coisas ao mesmo tempo, com o mesmo enfoque e com a mesma intensidade?
Fazer missões é fazer missão no mundo todo, para todas as pessoas, independente de raça, cor, status social, poder aquisitivo, classe social ou de se considerar as pessoas integradas ou não à sociedade. Afinal, os bons cidadãos, as pessoas de bem, a classe média e os mais abastados (aqueles que levam a carga do desenvolvimento de seus países, que fabricam roupas pra gente vestir, comida pra gente comer, etc.), como bem todas as pessoas integradas em todas as nações e minorias étnicas do mundo, têm o direito de ouvir o evangelho da mesma forma que os pobres, os flagelados e aqueles que estão, como dizem, em situação de risco.

A IGREJA E A GRANDE COMISSÃO
Que a Grande Comissão foi dada à igreja, é ponto pacífico. Porém, tal qual a chamada geral, a Grande Comissão pressupõe que a igreja é composta por pessoas dotadas. Pessoas que receberam, cada uma delas, os seus dons espirituais através dos quais servir a Deus, tanto quanto pressupõe também o envio de missionários.

Em Atos 1.8, por exemplo, “Mas recebereispoder quando o Espírito Santo descer sobre vós; e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra.”, a parte sobre receber o poder do Espírito Santo e a incumbência de ser testemunha de Jesus Cristo, se aplica a todos, tanto aos que ficam em Jerusalém como aos que vão para a Judéia, Samaria e Confins da Terra. Mas, o deslocamento geográfico, a partir de Jerusalém, ou mesmo da Judéia e Samaria, não tem como se aplicar a todos indistintamente. Não dá para a igreja mandar toda a sua membresia para os confins da terra. Ela só pode fazer isso através do envio de missionários.
Quando a igreja de Antioquia enviou Paulo e Barnabé para os gentios, por exemplo, ela estava cumprindo essa parte da Grande Comissão indo aos “gentios de longe” nas pessoas daqueles dois missionários.

Em Mateus 28.19,20 temos, em complementação, a tarefa de “fazer discípulos” tarefa essa expressa nas palavras de Jesus: “ensinando-lhes a obedecer a todas as coisas que vos ordenei;'”. Ora, fazer discípulos implica em dom de ensinar.
Se tomarmos 2Timóteo 2.2, a tarefa fica um tanto mais específica, porque o discipulador, ali, está sendo incumbido de ensinar outros que tenham também o dom de ensinar outros, formando, assim, uma cadeia de pessoas com dom de ensino: “O que ouviste de mim, diante de muitas testemunhas, transmite a homens fiéis e aptos para também ensinarem a outros’” Essa conjuntura, implica, no mínimo, que o missionário é um que precisa ter o dom de ensino.

Em outras palavras, uma igreja que não leva em conta os dons espirituais de sua membresia e não exerce a prática de enviar missionários, não tem como cumprir a Grande Comissão.

Em nossa experiência como casal, no campo missionário, Gudrun e eu, aprendemos logo quais eram os dons que cada um tinha e os que não tinha. Gudrun tinha muitos dons que eu não tinha e vice-versa.

Ela não tinha jeito algum para ensinar e discipular, mas ensinou muitas irmãs Xerente a ler e escrever
em sua própria língua como também cuidou dos enfermos com sua profissão de enfermeira. Eu costumava brincar com ela dizendo: Um missionário não precisa saber nada de enfermagem, basta ele se casar com uma enfermeira. Ela retrucava: Uma missionária não precisa saber nada de Linguística, basta ela se casar com um linguista. Assim, juntamos nossos dons e deu para fazer o trabalho, pela graça de Deus.

SITUAÇÕES EM QUE UMA CHAMADA ESPECÍFICA E UM TREINAMENTO ADEQUADO SE FAZEM NECESSÁRIOS
Quando se fala de chamada específica, não se está falando necessariamente em missões no Exterior, missões nos Sertões do Brasil, missões longe de casa, etc. A chamada pode ser bem doméstica, dentro dos contornos da igreja. Chamada específica é para se trabalhar com pessoas específicas, grupos específicos, situações específicas, seja perto, seja longe. Deixem-me descrever as várias situações onde uma chamada específica, acompanhada de seus respectivos dons e de um treinamento apropriado, se faz necessária:
Transpondo barreiras geográficas, linguísticas e culturais, com povos de línguas ágrafas - Indígenas do Brasil e demais grupos étnicos minoritários ao redor do mundo;

Transpondo barreiras geográficas, linguísticas e culturais, com povos escolarizados - Trabalhos no Exterior em qualquer um dos países conhecidos;
Transpondo barreiras geográficas, no Brasil, e enfrentando diferenças regionais em termos de língua e costumes - Ribeirinhos do Amazonas, Quilombolas, Comunidade de Pescadores, certas comunidades sertanejas mais isoladas e até municípios menos evangelizados;
Transpondo barreiras de herança histórico/cultural/religiosa tradicionais - Imigrantes estrangeiros como japoneses, italianos, pomeranos, judeus, árabes ciganos e outros (entre os ciganos os missionários estão também traduzindo a Bíblia para a língua Calon);
Transpondo barreiras religiosas radicais - comunidades espíritas, esotéricas, católicas tradicionais e outras;
Transpondo barreiras de experiência de vida e de “mundos” inteiramente diferenciados - Pessoas portadoras de necessidades especiais como surdos, autistas, pessoas com síndrome de Down e outros;

Transpondo barreiras de desvio de comportamento social - dependentes químicos, alcoólatras, presidiários e outros;
Transpondo barreiras de classes sociais e profissionais - artistas de rádio e televisão, profissionais liberais, desportistas, estudantes, empresários, militares, favelados, meninos de rua e outros;
Transpondo barreiras de faixas etárias - crianças, adolescente, jovens, adultos, idosos.

Agora, se você quer evangelizar sua família, seus vizinhos, seus colegas de classe, seus colegas de trabalho, as pessoas da cidade com as quais você tem livre comunicação, você não precisa de uma chamada específica. Você já está chamado e convocado para isso, a partir da sua conversão. Para melhorar sua proficiência, talvez fosse bom ler algum tratado de “como ganhar pessoas para Cristo”, por exemplo, ou fazer um curso de Discipulado, assistir alguma conferência ou encontro sobre o assunto, etc. Mas, fique atento. Se você se sair bem no evangelismo caseiro é “perigoso” que o Senhor o chame, de forma específica, para um trabalho mais definido em sua seara. Deus não costuma chamar aqueles que não estão fazendo nada. Ele sempre chama pessoas ocupadas e aquelas que já demonstraram interesse pela promoção do seu reino aqui na terra.
Não tenha, entretanto, complexo, por não ter sido chamado para ser missionário. Nem pense que você, sendo fiel ao seu dom e servindo a Deus de coração no contexto de sua igreja, no contexto da sua profissão, na sua comunidade, é menor do que os missionários. Deus não olha o homem pelo lado de fora ele olha pelo lado de dentro. “o homem olha para a aparência, mas o SENHOR, para o coração (1Samuel 16.7c). Aqueles que servem ao Senhor, fielmente, no lugar onde Deus os colocou, seja perto ou longe, terão todos o mesmo galardão: “Quem concordaria com isso? A parte dos que ficaram com a bagagem será a mesma dos que foram lutar; todos receberão partes iguais”. (1Samuel 30.24)

No Velho Testamento, nem todos podiam ser sacerdotes, levitas, profetas e reis. Mas o número de destacados entre os fies, é enorme. É fácil vir à mente nomes como Abel, Enoque, o próprio Noé, Ló, Ana, Rute, a moabita, e Raabe, a meretriz, que acabaram entrando na lista dos antepassados na genealogia de Cristo, Ester, e tantos outros mais. No Novo Testamento, também a lista é grande: Os irmãos Maria, Marta e Lázaro, Nicodemos e José de Arimateia, Dorcas, Priscila e Áquila e os demais da enorme lista de Paulo no capítulos 16 de Romanos: Febe, Epêneto, Maria, Andrônico e Júnias, Amplíato, Urbano, Estáquis, Apeles, Aristóbulo, Herodião, Narciso, Trífena e Trífosa, Pérsides, Rufo,
Asíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Filólogo, Júlia, Nereu e Olimpas. Todos esses serviram a Deus com seus dons, bens e talentos e foram tão honrados como os especificamente chamados tanto no Velho Testamento como no Novo.

Além disso, é preciso considerar que nem todos os que são chamados, são chamados para ser missionário. Há muitas outras chamadas. Chamada para pastor, chamada para evangelista, para professor, para ministro de musica, etc. A regra é que “todos os missionários são chamados, mas nem todos os chamados são missionários”. Eu costumo dizer, em minhas palestras sobre Vocação e Chamada, que o elemento chamado de modo específico, tem, na verdade, duas chamadas: Uma que acontece no tempo eterno, quando ele está ainda no ventre materno (ou antes), e outra que acontece no tempo e no espaço, como foram os testemunhos de Jeremias e Paulo, por exemplos, conforme os versículos já citados de Jeremias 1.5 e Gálatas 1.15,16.
Se o Senhor, contudo, o chamar, não tenha medo nem diga que não tem dom ou capacidade. Essa é a parte que cabe a ele. Também não precisa ter reserva de ir colaborar em qualquer campo missionário mesmo que seja por pouco tempo, conquanto que seja para fazer aquilo para o qual você tem certeza de que tem os dons apropriados. Lembro-me de uma moça que passou apenas algumas semanas entre os Xerente trabalhando com as crianças de lá. Ela era tão dotada para isso que as crianças da aldeia e até mesmo os adultos nunca mais se esqueceram dela.
Para concluir, veja, a seguir, como Deus chama os seus escolhidos e como é Ele quem se responsabiliza pela chamada, tanto quanto se responsabiliza pelo seu êxito e sua realização.

AS CARACTERÍSTICAS DA VOCAÇÃO E CHAMADA ESPECÍFICA
Nominal:
Quando Deus chama uma pessoa para um fim especial, ele costuma chamar sempre pelo nome, de modo inconfundível, e não admite substitutos. Quando Deus chama Abraão, Ló não serve; quando chama Jacó, Esaú não serve; quando chama Moisés, Arão não serve; quando chama Samuel, Eli não serve; quando chama Davi, Saul não serve; quando Deus chamou Barnabé e Saulo, na igreja de Antioquia, mesmo que a igreja fosse procurar outros, dos muitos bons que havia lá, não serviriam.
Específica:
Quando Deus chama alguém, ele diz por quê. Nem sempre ele diz o lugar, mas o motivo da chamada fica
sempre bem claro. Deus chamou Abraão para ser o pai de uma grande nação; chamou Moisés para tirar o
povo de Israel da escravidão do Egito; chamou Davi, para ser o rei de Israel, e assim por diante.
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Soberana:
Deus chama quem ele quer. O esperado, segundo a cultura de Israel, seria Deus chamar Esaú, já que ele era o primogênito, mas Deus chamou Jacó. “...o mais velho servirá ao mais moço”. (Gênesis 25.23c). Quando Jesus subiu ao monte para orar e escolher, em seguida, os seus doze apóstolos, ele chamou, para subirem com ele, os que ele mesmo quis. (Marcos 3.13)

Coerente:
Coerente com os dons espirituais, com as habilidades pessoais, com a função no corpo de Cristo. “Não deixes de desenvolver o dom que há em ti, que te foi dado por profecia, com a imposição das mãos dos presbíteros” (1Timóteo 4.14)
Auto capacitadora:
Moisés: (Êxodo 3.10-12; 4.10-12) “... Eu nunca fui bom orador...” (4.10b) “... Respondeu-lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem?...” (4.11a) “... Certamente eu serei contigo... ” (3.12a)
Gideão: (Juízes 6.11-16) “Então o anjo do SENHOR apareceu a Gideão e disse: O SENHOR está contigo, homem valente.” (v.12) “... Ah, meu senhor, com que livrarei Israel? A minha família é a mais pobre em Manassés, e eu sou o menor na casa de meu pai.” (v.15). “O SENHOR virou-se para ele e lhe disse: Vai nesta tua força e livra Israel das mãos dos midianitas. Não sou eu que estou te enviando?” (v.14)
Jeremias: “Então eu disse: Ah, SENHOR Deus! Eu não sei falar, pois sou apenas um menino. Mas o SENHOR me respondeu: Não digas: Sou apenas um menino; porque irás a todos a quem eu te enviar e falarás tudo quanto eu te ordenar” (Jeremias 1.5-7)
Paulo: “Não que sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se viesse de nós mesmos, mas a nossa capacidade vem de Deus.” (2Coríntios 3.5)
A vitória, pois, é nossa! Deus pôs um Estandarte na mão dos chamados: “EU SEREI CONTIGO”!

Por Rinaldo de Mattos
Associação de Missões Transculturais Brasileiras - http://www.amtb.org.br

Que o Senhor o abençoe em sua decisão!
Nota: Os textos bíblicos citados nesse artigo são da versão “A Bíblia Sagrada Almeida Século 21”
Via: Veredas Missionárias

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